segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A ERA DO PÓS-VERDADE: O pântano do misticismo subverte a razão – Trump/Bolsonaro e a 'ciência' do não-saber



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uitas perguntas têm instigado cientistas sociais e filósofos a se questionarem ao longo dos tempos acerca de qual a nossa relação com a realidade que nos permeia. O que, concretamente, ela é? Existe o fato objetivo? É possível determinar como realidade concreta o intricado mundo das relações sociais em cada fato posto? Na atualidade, qual o papel da informação, nesse sentido, como ela nos coloca dentro, perante (ou fora) dos acontecimentos e como descrevê-los da forma mais correta possível para que se atinja ou se encontre a Verdade lógica numa conjuntura politica e social através da qual o sujeito dotado de irracionalidade está cada vez mais individualizado, quase que submerso em sua solidão social, cuja consequência hoje presenciamos em fenômenos de ascensão da extrema-direita em todo o mundo (trumpismo e bolsonarismo, por exemplo). Para chegar a um denominador comum, trabalharei com duas hipóteses, uma nietzschiana e outra marxista, aparentemente opostas, mas que têm princípios cognitivo-epistemológicos bastante interessantes. O primeiro expõe; o segundo explica!

Friederich Nietzsche e sua metáfora da realidade
NIETZSCHE versus MARX, OPOSTOS QUE SE COMPLETAM

Algumas respostas elencadas pelas inquietações acima expostas Nietzsche pode nos dar uma dimensão, partindo de seu extenso manancial sistêmico de ideias, do qual podemos extrair em poucas palavras, “não há fatos, apenas versões” (NIETZSCHE, 1887). Sob a ótica da moral, avalia que os Homens “...estão profundamente imersos em ilusões e imagens de sonho, seu olho resvala às tontas, pela superfície das coisas e vê ‘formas’, sua sensação não conduz em parte alguma à realidade, mas contenta-se em receber estímulos e como que dedilha um teclado às costas das coisas” (NIETZSCHE, 32, 1987 – grifos meus).

Assim, para o filósofo, a captação do real é uma ilusão e, portanto, superficial adquirida por sensação (sentido), de acordo com a qual o sujeito contenta-se e assimila-a como bem entende, logo para este sujeito contente trata-se de Verdade. Em se tratando de um longo processo de alienação e de realçar postura acrítica, tal pode ilustrar muito bem o período pela qual passamos no Brasil e boa parte do planeta dominados pelo neofascismo (Polônia, Áustria, Hungria, Filipinas, EUA, Brasil, Inglaterra etc.). Nietzsche, contudo, está muito mais para a metafísica do que para o materialismo, ou seja, a sua teoria do conhecimento é essencialmente contemplativa, todavia pode exemplificar o que passa com o alienado. Não obstante, suas metáforas servem para definir com propriedade o significado de alienação, que conhece a existência da matéria, mas não a distingue da consciência e das sinapses neurais do cérebro humano, isto é, a forma como percebemos e analisamos as coisas. Em síntese, Nietzsche tem seu enfoque filosófico convertido em “verdade metafórica”, cuja principal evidência cognitiva é a indiferença que o sujeito possui de seu não-saber, pois é muito mais confortável para si, para seu inconsciente. Desconhecer pode ser um dos primeiros postulados que levam ao misticismo e às crenças, a não-verdade, à mentira.

Karl Marx: o que determina o Ser é sua praxis
Anos antes de Nietzsche, Marx trabalhara com o conceito de Verdade, aquele que faz a correspondência entre a representação consciente do objeto e o objeto em si, a partir da observação do mesmo e vai além: “A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica” (MARX, 1969). Simplificando este pensamento, só pode conhecer quem age e não contempla! Diferente de Nietzsche, Marx afirma que há sim verdade objetiva, uma vez que ela deve ser posta à prova dos acontecimentos, o que dela incide sobre o Homem e a sociedade. A realidade, ou a verdade, não é uma mera metáfora arbitrária desprovida de razão e lógica. É o Homem em sua totalidade, a experiência histórica, pessoal/coletiva que dará luz ao farol de sua consciência. Engels iria dar sequencia a este pensamento em um artigo de 1886: “...o que Feuerbach acrescenta de materialista, tem mais de engenhoso do que profundo. A refutação mais contundente destas extravagâncias, como de todas as demais extravagâncias filosóficas, é a prática, ou seja, o experimento e a indústria” (2019).

A FENOMENOLOGIA “PÓS-VERDADE” É UMA REALIDADE OBJETIVA?

Mas o que é “pós-verdade”? É o que “se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”, segundo o Oxford Dictionaries. Quer dizer, na atualidade tem mais peso as opiniões e não os argumentos fundamentados em bases científicas, há o predomínio da crença (religiosa ou até objetiva) sobre a razão. Não por acaso concepções criacionistas, terraplanistas e o neopentecostanismo estão ganhando evidencia e destaque “intelectual”, ou que o nazismo era de esquerda, vacina causa demência e outras aberrações vêm ganhando terreno dentro do senso comum das massas e de “autoridades” governamentais enterradas em sua ignorância querem impor censura a cientistas que divulgam suas pesquisas (Bolsonaro segue à risca o que Trump faz e determina a seus subalternos).

Mídia corporativa e a miséria
humana como pano de fundo
O obscurantismo veio ascendendo na cultura mundial principalmente após os ataques às Torres Gêmeas em 2001, em Nova Iorque, e a ulterior perseguição ideológica a quem pensasse diferente do american way life: a guerra antiterrorismo desencadeada por todo o planeta por parte de G. Bush filho. Acirraram-se ainda mais o proselitismo cristão, do homem branco, ocidental ao estourar a grande crise econômica de 2008 que consumiu várias potencias capitalistas, inclusive a americana, desembocando em profundas crises políticas em inúmeras partes do mundo. A guerra de informações falsas estava declarada (Iraque possuía armas de destruição de massas)! A espionagem ganhou força, a procura de pessoas engajadas em questões sociais para prendê-las ou amedronta-las, amplia-se a coleta de dados pessoais para, conforme seus desejos nas redes sociais, melhor manipulá-las com logaritmos digitais (os Big Data) e assim convencê-las de uma suposta necessidade ou verdade criada. Aqui a ideia clássica de verdade, que nega fatos objetivos por conta de crenças políticas individualizadas paradoxalmente dentro de uma coletividade (o bolsonarismo exemplifica com bastante clareza este fenômeno).

A individualização da sociedade remete-nos ao pensamento nietzschiano: a indiferença do não-saber traz-nos como triunfo o predomínio da crença (não necessariamente religiosa). Os fatos objetivos têm menor peso que a crença pessoal, isto é, o emocional sucede sobremaneira o racional, tendo-se como substrato diversos apelos à fé (política ou religiosa). Neste sentido, Copérnico foi queimado na fogueira pela Inquisição e Galileu teve que renunciar a suas ideias. Há décadas o establishment vem plantando as sementes ideológicas nas cabeças das pessoas incutindo à exaustão a ideia de que se preocupar com o coletivo é coisa de comunista. Os meios de comunicação (manipulação) de massas e as redes sociais são a demonstração das tendências mais reacionárias que vive a Humanidade. Muitos dizem a “verdade”, então só pode ser verdade mesmo!

Boris Yelstsin dirigiu o golpe militar
que destruiu a URSS
Em uma análise mais fina, o termo pós-verdade evoluiu objetivamente na História. Logo após a derrubada contrarrevolucionária dos Estados operários da URSS e do Leste europeu em 1992 fora utilizado pela primeira vez. O anticomunismo assumiu contornos paranoicos a partir daí, quando nos anos 2000 massificou-se através das grandes corporações midiáticas e empresariais. Dentro dessa “nova” noção qualquer pensamento fora de padrão é considerado inimigo de Estado e, consequentemente, respondendo a estes estímulos, a grande mídia corporativa logo trata de difundir apelos a preconceitos e ódios anteriormente contidos ainda pela força das referências mundiais num contexto político bi-polarizado da guerra fria. Com o fim contrarrevolucionário da URSS o caminho para o não-saber estava aberto.

Por outro lado, pode-se falar em crença na Verdade? Este é o mesmo lado da moeda dos ditos pós-verdadeiriistas. Como práxis, definida por Marx, a Verdade, na ciência jamais pode ter uma via de mão única, caso contrário seria a expressão mais acabada do individualismo subjetivista, marcado por uma profunda (e lamentável) desumanização do Ser, uma vez que implica não a cooperação entre os vários indivíduos, mas a competição desanuviada, no campo da obscuridade anti-intelectual. O resultado do credo em verdades – que se converte em mentira – transforma o sujeito (pessoas) em sua recusa a aprender, em absolutização da teimosia sináptica. Claro, para o marxismo, o pós-verdade é sim uma realidade, pois a mentira é uma elaboração (des)humanizadora.

O REAL CONCRETO COMO PANO DE FUNDO E INDIVIDUALIZAÇÃO

Não se pode negar, os costumes após 2001, 2008 e 2016 (eleição de Trump) mudaram tanto politica como culturalmente de uma forma bastante significativa com o advento e a massificação da internet ao lado das crises econômicas e politicas.

Nos anos 80 o filme Blade Runner (SCOTT, 2019) foi o emblema estético do pós-modernismo. Nos dias mais atuais toma-lhe este lugar a trilogia de Matrix, um mundo de sonhos criado por computador que simula uma realidade de uma humanidade adormecida e sem consciência do que se passa a seu redor. Nele, o personagem Cypher, outrora batalhador e defensor das liberdades, profetiza no seu novo mundo: “a ignorância é uma benção” (WACHOWSKI, 2019), pois não quer acordar para realidade (novamente Nietzsche!). O que importa é estar bem, sem sofrer, mesmo que isto acarrete trair amigos, corromper-se. Verdadeira sinopse dos novos tempos!

A individualização (descoletivização desumanizadora) toma a realidade como mero pano de fundo de suas vidas, toda ela imersa inapelavelmente em amores, trabalhos e amizades. Problemas alheios não lhes convêm, nem interessa. Conflitos, guerras, pobreza são ilustrações apresentadas pela mídia apenas para ser consumida, não entendida. A dura realidade torna-se uma alegoria distante, enquanto isto, a vida segue... Não questionar, não refletir seguem uma tendência cultural e política em face da contemporaneidade dos fatos, miríades de informações são jogadas quase que ao infinito nas mentes das pessoas. A tecnologia tornou o mundo pequeno em termos de comunicação, cujo contraponto manifesta-se através da desinformação e da ignorância como uma natureza paradoxal.

Com o culto ao não-saber, guerras passam ao largo da população
É do escritor Evan Davis a avaliação sobre o pós-verdade, reforçado com o trumpismo: “...a política da ‘pós-verdade’ é como o ‘populismo’ ao sugerir que essas mudanças inesperadas ocorreram porque a razão havia sido subvertida. Enganados por demagogos implantando novas tecnologias da informação, os eleitores desconsideraram argumentos e evidências em favor de emoções manipuladas e notícias falsas . A ideia de verdade foi perdida em um pântano de relativismo, e os políticos que controlaram o governo por décadas foram abruptamente desalojados do poder” (GUARDIAN, 2017). “Mentiras políticas, giro e falsidade não são exatamente as mesmas que a pós-verdade. O que é novo não é a mendacidade dos políticos, mas a resposta do público a ele. Mentir é considerado a norma, mesmo nas democracias” (idem), disse Matthew d'Ancona reforçando o opróbio disseminado pelo neoliberalismo, afinal a exacerbação individualista e o pós-verdade são produtos imediatos do pensamento neoliberal dogmático mais rasteiro.

Tudo se perde, afunda neste pântano relativista, lugar em que não há uma verdade objetiva. Ocupam este vazio as fake news, as deep fake (inteligência artificial que manipula filmes e vozes), o pseudonacionalismo (neofascismo), o populismo de extrema-direita como resultado do não-saber nietzschiano. A visão formalista e individualista/pragmática aliada ao materialismo consumista que cresceu vertiginosamente nas últimas décadas conduziu a um crescente processo de desumanização dos indivíduos, à exacerbação de sentimentos e atos violentos contra setores vulneráveis da sociedade. Os interesses pessoais acima dos fatos sociais, eis o real significado do pós-verdade, num contexto em que a mentira nasce de uma forma organizada e sistemática nas estratégias midiáticas de manipulação em massa em benefício de determinado governo.

Ao perderem-se as noções do real, cai-se em profundo cinismo niilista: a recusa em acreditar na verdade de qualquer coisa. Por exemplo, no Brasil equivale a dizer que os políticos são todos corruptos, desconsiderando as enormes diferenças entre eles. Tudo é farinha do mesmo saco, dizem como indústria do niilismo. A pós-verdade é tomada aqui como não-verdade. Um caminho para desatolar do pântano foi aberto por Marx: “A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis” (Thesen 8, grifos meus). O que fazemos e como fazemos é o que pode nos definir como seres humanos (humanizados) e tornar possível compreender o que acontece ao nosso redor.


Referências bibliográficas e cinematográficas                            





ENGELS, Friederich. Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã. https://www.marxists.org/portugues/marx/1886/mes/fim.htm. Acesso em 3 de agosto/2019).


MARX, Karl. Thesen über Feuerbach, in Marx-Engels Werke, Band 3, Seite 5ff. Dietz Verlag Berlin, 1969 http://www.mlwerke.de/me/me03/me03_005.htm acesso em 3 de agosto/2019.

NIETZSCHE, Friederich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. 1873, in Os Pensadores, vol 1, 1987.

___________________. Fragmento póstumo 7 [60], fim 1886-primavera 1887.

SCOTT, Ridley. Blade Runner, o caçador de androides. https://www.netflix.com/br/title/70082907, acesso em 3 de agosto/2019.


WACHOWSKI, Lana, Lilly Wachowski. MATRIX. https://www.youtube.com/watch?v=o6cjiZs2EvU, acesso em 3 de agosto/2019.