terça-feira, 12 de maio de 2020

13 DE MAIO - DIA DA LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS: Em meio à fanfarronice filofascista do bolsonarismo é necessário comemorarmos a vitória abolicionista como uma conquista seminal!


N
este momento de severa pandemia e ataques às comunidades negras pela bazófia bolsonarizada, devemos comemorar o 13 de Maio? Isto quando os filofascistas tem em seus representantes os nomes certos para destruir o que resta das populações quilombolas no país, particularmente no Maranhão: famílias residentes há mais de 300 anos na região de Alcântara estão para serem expulsas de suas terras para dar lugar à base militar norte-americana (1). Na atual conjuntura, o governo federal implementa a destruição total das políticas públicas, quaisquer que possam proteger estas comunidades, pondo em evidência o seu caráter sobremaneira racista. O asqueroso terraplanista Sérgio Nascimento de Camargo, Presidente da Fundação Palmares, afirmou que a “escravidão foi benéfica” e que o dia da consciência negra “precisa ser combatido incansavelmente até que perca a pouca relevância que tem” (2) e tantas outras aberrações são a marca indelével de quem assenta-se no Planalto. As campanhas institucionais cada vez mais se permeiam por programas de forte conteúdo nazista e dão o tom lumpen-burguês do atual governo.

 RACISMO ESTRUTURAL E ATRASO ECONÔMICO

O Brasil foi uma das primeiras nações do mundo a instituir o escravismo e, como produto de sua continuidade sistêmica, a última a aboli-la! De toda a existência brasileira, em seus 520 anos, 350 foram sob o domínio escravocrata português. Apenas 170 anos vigoraram juridicamente sem o povo escravizado em razão de sua raça e fonte de um modo de produção que o legitimava a partir de sua superestrutura ideológica. Neste devir histórico, qual o significado da Abolição da escravatura, a Lei Áurea de 1888?

Três séculos de brutalidades no Brasil colonial
Devemos ter um ponto de partida para compreendermos esta questão. Trata-se da “conspiração do silêncio” levantada pelo professor Mario Maestri: “...a operação recebe o apoio do movimento negro brasileiro que, ao contrário, deveria desdobrar-se na celebração do 13 de Maio e na discussão de seu significado histórico, destruindo interpretações apologéticas a ele” (3). É preciso desbravar mais um mito criado, no sentido de que a Abolição pelas mãos da monarquia fora algo passivo/pacífico, produto da “bondade da princesa” e que, portanto levou à edificação de uma sociedade desigual. Rompamos com este pensamento euclidiano e a visão da sociedade como uma reta, posto que a verdade nos conduz à memória de gênese da nossa formação histórica ainda ladeada por um retrógrado racismo estrutural.

Almeida ressalta que “...pensar o racismo como parte da estrutura não retira a responsabilidade individual sobre a prática de condutas racistas e não é um álibi para racistas. Pelo contrário: entender que o racismo é estrutural, e não um ato isolado de um indivíduo ou de um grupo, nos torna ainda mais responsável pelo combate ao racismo e aos racistas” (4).

O BRANCO COMO CABEÇA DE PONTE? DESMEMORIZAÇÃO DE INTENSA PUGNA!

José de Alencar,
ferrenho anti-abolicionista
Historiadores e sociólogos, especialmente nos anos 60 do século passado lançaram névoa acerca do significado do 13 de Maio. Florestan Fernandez, Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso expuseram suas teses cujo protagonismo abolicionista concentrava-se nos brancos, aos cativos coube o papel sem grandes destaques.

Na década seguinte, em seus estertores, o movimento negro adapta esta concepção para formar novas teses, objetivando desqualificar o ato governamental da Abolição, haja vista que fora conduzida sem indenizações, tinha como meta criar mão de obra barata, as condições materiais de vida pioraram (5). O amálgama cepalino freyreano estava pronto, formando o todo negacionista, apesar das boas intenções do movimento negro!

Assim, postulando no campo crítico pelo pesquisador, o movimento negro se opondo à legitimidade da princesa Isabel e dos brancos, propõe descartar o 13 de Maio e adotar o 20 de Novembro como data referência da consciência negra, data na qual o maior líder do Quilombo dos Palmares fora assassinado. Na verdade, tal concepção encerra um equívoco epistemológico, pois passa a desconsiderar o longo passado de enfrentamentos e lutas até o “ato de bondade da princesa”! Milhares de formas de resistências são jogadas no limbo do esquecimento...

APENAS UM PROBLEMA METODOLÓGICO?

Veremos que não se trata de erro de interpretação, mas uma fina visão de mundo, aquela que açambarca as ideias das classes proprietárias e reticentes quanto aos feitos das massas escravizadas. Parece uma análise dura, sectária, mas é a quintessência do esquecimento do processo abolicionista de um dos acontecimentos mais importantes da história do Brasil!

Por muitos anos o fato histórico fora comemorado acriticamente pelas comunidades negras. Nas últimas décadas passou a vingar o proselitismo anti-abolição, o qual acabaria na perda de um importante memorial das massas oprimidas, principalmente a afro-descendente.

Numa outra situação, não podemos ignorar a importância que a Abolição causou na consciência e na vida dos cativos. Era o fim dos horrores macabros de um povo escravizado (algo em torno de um milhão). À época fora celebrada como uma vitória do povo negro! Opor-se a esta lição de vida significa alienar-se plenipotencialmente de uma extensa experiência e memória popular, tal como advoga a classe dominante e sua ideologia, ainda mais o que hoje propugna o filofascista governo federal.

O 13 de Maio como segmento do Quilombo de Palmares!
É preciso deixar cristalino que Palmares não está em oposição ao 13 de Maio, por mais que seu povo desse sua vida por ele, considerando que “...a epopeia palmarina jamais se propôs... a destruição da instituição servil” (6). A heroica Palmares, com milhares de vítimas dos canhões portugueses, fora derrotada; a Abolição, por outro lado, consumou uma vitória, igualmente à custa da resistência histórica do povo cativo em meio a um modo de produção sui generis, diferente dos demais existentes na América espanhola ou dos Estados Unidos, o chamado “escravismo colonial” (7).

A PERMANÊNCIA DA MONARQUIA FOI A DURAÇÃO DO ESCRAVISMO COLONIAL

A agonia do regime monárquico fora intensificada pela falência do modo de produção, paradoxalmente medieval na colônia (Brasil) e pré-capitalista na metrópole (Portugal). Fuga de cativos, execução de feitores e senhores, exigência do fim do tráfico negreiro por parte da Inglaterra (em 1845 - Slave Trade Supression Act), profundo atraso das forças produtivas (plantations), tudo solapava as bases coloniais do “Império” brasileiro. O abolicionismo desenvolvia-se rapidamente por um Brasil cada vez mais pobre. D. Pedro II tentou até o fim de seu desespero colonial manter o instituto escravista, uma vez que suas bases de apoio político estavam à beira de falir (a oligarquia cafeeira e mineira).

Contudo, a derrocada da monarquia não teve como causa única o fator econômico: a questão subjetiva (desejo e reivindicação de liberdade) deve ser considerada numa análise materialista, porque senão cairíamos numa simplificação não-histórica. A luta de classes, embora “em si”, era feroz e repercutia intensamente no mundo colonial escravista. O movimento abolicionista, de certa forma, era a expressão distópica das resistências dos cativos. Tomou para si a função programática que visava unir os cativos, os caboclos, os posseiros, os sem terra num continuum crescente.

Manifestação popular diante da Câmara Municipal do Rio de Janeiro
O abolicionismo não foi exclusivamente acadêmico-literário, pois desde sua origem sempre esteve sob a contenda do establishment, dadas as sólidas raízes com os cativos e pobres da sociedade agropastoril brasileira: sujeito à violência policial, prisões, assassinatos, desmandos cruentos. Contudo, em 1889, este fluxo fora drasticamente contido com o golpe militar que instituiu a “República” e perseguiu os abolicionistas, estancando o caráter revolucionário dos mesmos. Neste sentido, podemos afirmar que a Proclamação da República, um ano após a Abolição, cumpriu um papel objetivamente contrarrevolucionário.

Assim Maestri resume a questão: “Desconhecer o sentido revolucionário da Abolição é olvidar a essência escravista de dois terços de passado brasileiro e o caráter singular da gênese do Brasil contemporâneo, através da destruição do escravismo. Tal desconhecimento ignora a contradição essencial que regeu por mais de trezentos anos o passado brasileiro - escravizadores contra escravizados” [2005]. O negacionismo é uma revisão histórica que distorce a realidade pretérita. Os abolicionista não foram formados apenas pela classe média em ascensão à época: havia uma forte base popular que congregou negros escravizados, negros livres, e até mesmo brancos desde os anos 1880. Os abolicionistas reuniam-se nas chamadas “ruas e bairros livres”, espécies de “quilombos” urbanos.

Ferrari nos dá uma perspectiva alentadora: “Um robusto movimento abolicionista, com sua contrapartida escravista, também teve papel histórico central durante os 20 anos (1868-1888) que precederam a Lei Áurea” (8).Graças a esta verve, a abolição fora uma conquista, não uma dádiva, nem resultado mecânico de uma exaustão econômica, um marco da incipiente classe operária brasileira. Enterneceu até mesmo o romancista Raul Pompeia: “a ideia de insurreição indica que a natureza humana vive. A maior tristeza dos abolicionistas é que essas violências não sejam frequentes e a conflagração não seja geral.” (9).

QUE HISTÓRIA QUEREMOS FORMULAR?

Necessário compreender que a Abolição mexia consideravelmente na ordem escravista imposta, nas hierarquias sociais e na cultura até então vigentes, tanto é verdade que não fora um processo consensual entre a classe dominante. Alonso capta muito bem este sentimento ao considerar que “O Império era fundado na escravidão, não só na economia. A hierarquia social era baseada na posse de bens que davam poder e prestígio, e os bens mais importantes eram os escravos. A escravidão sustentava também o sistema partidário, porque o eleitorado era definido com base na renda.” (10). A perda deste domínio apavorava a classe proprietária e seu porta voz antiabolicionista, o romancista Jose de Alencar se queixava em 1867: “Um sopro bastará para […] lançar o Império sobre um vulcão” [Idem].

A consciência negra na perspectiva da luta de classes
“A Revolução Abolicionista permitiu a gênese de um Estado liberal antidemocrático - a República Velha (1889-1930) - , apoiado agora na exploração do trabalho livre, onde o produtor direto vendia sua força de trabalho e não era mais propriedade de seu explorador” (11). Conrad (12) chegou à conclusão que os abolicionistas almejavam não exclusivamente o fim da escravidão, mas defendiam um projeto de modernização do país: reforma eleitoral, reforma educacional e distribuição de terras. Óbvio, programa diametralmente oposto ao que pregava a rústica oligarquia brasileira. Entretanto, esta condição permaneceu dentro do campo do racismo estrutural, o qual perdura até os tempos atuais: ex-cativos sofrem discriminação racial, ocupam terras devolutas, vão trabalhar nas fazendas sob cota miserável, muitos tornam-se indigentes, outros vão atuar como estivadores em portos.

O impacto na subjetividade dos ex-cativos foi enorme, tanto que Domingues (13) (14)destaca que as comemorações do Dia 13 de Maio eram quase que um ritual sagrado nas comunidades: Clube 13 de Maio dos Homens Pretos, em São Paulo, Federação Paulista dos Homens de Cor, o Centro Cívico 13 de Maio e a Sociedade Beneficente Isabel a Redentora etc. As festas convergiam neste início de século XX para a “fraternidade brasileira”, muito além da questão racial. “...Nas ruas, nas praças, nos cantos, recantos e arrabaldes de São Paulo, a Lei Áurea era sustentada com alegria, energia e fervor, por meio de batuques, sambas e jongos, principalmente” [Idem], em todos os seus significados polissêmicos.

Em outras palavras, a Abolição foi um fato objetivo e essencialmente subjetivo. Suas demandas e militância atearam fogo no Brasil oligárquico! Como afirmado acima, foi um processo inconcluso, porque não atingiu a emancipação dos explorados devido a contrarrevolução desencadeada pela "República". Muitas teorias surgiram, balizadas pelo descarte da luta de classes (muitas teses oriundas do Departamento de Estado americano, principalmente disseminadas pelo Partido Democrata). Trilharam, não obstante, para as políticas identitárias, amiúde racialistas e passionais a serviço da classe dominante, que hoje vigem na esquerda mundial. O identitarismo, muitos convertidos em seitas, tomam para si a autoridade para estudar e analisar, no nosso caso, o negro escravizado, como se fossem os proprietários da História de um povo e não raro romantizam-na de forma quase infantil e/ou sectária sob o signo da “representividade”.

Enfim, devemos compreender todo o processo acima descrito sem simplismos, de um dia, o 13 de Maio; mas sim como uma revolução exposta durante trezentos anos no território brasileiro: a única revolução triunfante em nossa história que, graças a ela toda uma estrutura jurídica e social fora transmutada!


Notas:                                                :

* Foto de capa: grande comemoração pós-Abolição, missa campal

1 Resolução número 11 do Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro.



4 ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. [S.l.]: Pólen Livros. 10 de julho de 2019 p. 46. ISBN 978-85-98349-91-6.


6 MAESTRI, Mario. 13 de maio: A única revolução social do Brasil. La Insignia. Brasil, maio de 2005. https://www.lainsignia.org/2005/mayo/ibe_028.htm.

7 GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. Ed. Ática, 1985.

8 FERRARI, Márcio. A batalha da Abolição. https://revistapesquisa.fapesp.br/2016/02/19/a-batalha-da-abolicao/.


10 ALONSO, Angela. Flores, votos e balas. Editora Companhia das Letras.

11 MAESTRI, Mário. Revolução e Contrarrevolução no Brasil, p.71.

12 CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravidão”. Civilização Brasileira (1978, 2ª edição).

13 DOMINGUES, Petrônio. Salve o 13 de Maio: as comemorações da abolição da escravatura. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH - São Paulo, julho 2011

14 __________________.“A redempção de nossa raça”: as comemorações da abolição da escravatura no Brasil1. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 31, nº 62, p. 19-48 - 2011. https://www.scielo.br/pdf/rbh/v31n62/a04v31n62.pdf