A justificativa divina balizava estes bárbaros: o Capitão Raposo Tavares, perguntavam os jesuítas e afirmava que o “direito lhe autorizava exterminar e reduzir a escravos os seus fiéis, respondeu: – É Deus que nos dá a ordem, no livro de Moisés: combatei as nações pagãs!” (Lugon, 1976, 52).
Contudo, as missões despertavam uma outra concepção, além da escravista ie militarista do antigo sistema colonial brasileiro. E isto os grandes meios de comunicação, como a RBS, dos Sirotskys, oculta de forma proposital. Senão vejamos o que significa a comemoração dos 400 anos das missões.
PARA ALÉM DO LAMENTO CULTURALISTA
Sob uma ótica materialista, a efeméride dos 400 anos dos Sete Povos das Missões deve ser deslocada do terreno da celebração culturalista ou do lamento folclórico para o campo da análise das relações sociais de produção. Neste sentido, a experiência missioneira representou, antes de tudo, uma gigantesca empresa de mobilização forçada de força de trabalho indígena. A redução não foi uma mera comunidade espiritual isolada, mas um complexo produtivo sofisticado, baseado na propriedade comunal administrada pela Companhia de Jesus, isto é, pela Igreja enquanto instituição de poder e seus “soldados de Cristo” (os jesuítas).A riqueza gerada pelo trabalho guarani precisamente aquela através da erva-mate e da pecuária, inseria-se objetivamente no mercado mundial embrionariamente capitalista, contribuindo para alimentar a acumulação primitiva de capital na Europa. Historicamente, a destruição militar das missões após o Tratado de Madri não foi uma tragédia causada por um “choque de culturas” abstrato, mas pela liquidação violenta de um modo de produção que, embora disciplinador e funcional ao capital mercantil, tornara-se um obstáculo à nova fase de expansão territorial predatória das coroas ibéricas e à implantação do latifúndio privado e escravista.
MISSÕES COMO UM FRACASSO CIVILIZATÓRIO?
No contexto acima apresentado, a efeméride nos obriga a uma ruptura epistemológica radical com a historiografia liberal e a teologia da libertação romantizada, que tenderam a ler as Missões como um “encontro” ou um “fracasso civilizatório”. A perspectiva anticolonial materialista evidencia as Missões como um laboratório do extrativismo epistêmico e corporal. O corpo guarani foi capturado não apenas como força de trabalho, mas também como objeto de uma engenharia social que buscava suprimir a reciprocidade comunal originária, substituindo-a por uma forma “cristã-comunitária” alienada, regida pelo tempo linear da produtividade europeia. O tempo ditado pela oração, pelo badalar do sino, pela disciplina imposta pelos padres.
O severo controle dos corpos provocava muitas resistências. Elas não se davam apenas nas formas visíveis da rebelião armada ou da fugacidade para o mato, mas na subsistência de práticas econômico-culturais insurgentes que corroíam internamente a lógica da acumulação jesuítica.
Pensar a partir dessa contradição existente entre a totalização do trabalho e a persistência da cosmopraxis guarani nos oferece uma chave para superar a noção de “exceção missioneira” e entender o Rio Grande do Sul como um território cuja formação social originou-se na violência da despossessão colonial, e não em um mítico “vazio demográfico” ou numa suposta superioridade do colono europeu posterior.
Assim, ao revisitar os 400 anos sob uma nova perspectiva anticolonial, a ciência histórica latino-americana deve operar uma inversão materialista radical. As ruínas de São Miguel não são monumentos ao gênio civilizatório europeu nem ao martírio indígena passivo; são fósseis de uma contradição insuperável entre a forma-valor capitalista, que se autoimplanta no Cone Sul, e uma forma social comunal que resiste na longa duração. O pensamento anticolonial* hoje não se limita a denunciar o extermínio físico, mas desvela como a racionalidade extrativista que destruiu as Missões é a mesma que hoje avança sobre os territórios guarani contemporâneos com o agronegócio e a mineração. A efeméride deixa de ser um olhar nostálgico para se tornar um programa de pesquisa-ação transformadora: o de demonstrar que o horizonte socialista ou comunal na América Latina não é uma utopia importada, mas uma memória de luta concreta, soterrada sob os escombros da modernidade colonial, que clama por restituição territorial e soberania popular.Nota
* Rejeito o termo decolonial, pois esta camada epistemológica reside na hipóstase da esfera cultural e epistêmica em detrimento das determinações econômicas da totalidade capitalista. Ao erigir a “colonialidade do poder” como um conceito quase metafísico, que perpassaria autonomamente o saber, o gênero e a subjetividade desde 1492, diversas correntes decoloniais tendem a descolar as relações de dominação racial e simbólica de sua base material concreta: a acumulação originária, a exploração do trabalho abstrato e a divisão internacional do valor. Com isso, opera-se frequentemente uma inversão idealista: a superação do capitalismo passa a ser deduzida não da contradição entre capital e trabalho, mas da desconstrução discursiva da modernidade ou do resgate de saberes subalternizados.
Referência bibliográfica
LUGON, Clovis. La Republique des Guarani - Les jésuites au pouvoir. 1976
