sábado, 9 de maio de 2026

VITÓRIA SOVIÉTICA SOBRE NAZISMO: nada de “aliados”, nem “general inverno”, tampouco “imensidão territorial”. E sim triunfo de um novo modo de produção e seu povo!!


Antes de mais nada, a vitória soviética sobre o nazismo não foi meramente um triunfo militar ou uma casualidade geográfica, mas a demonstração concreta das potencialidades superiores de um modo de produção pós-capitalista em seu enfrentamento com a forma mais bárbara do poder burguês sob a forma do imperialismo.

O nazismo, como bem analisou Leon Trotski em “A Revolução Traída” e posteriormente os teóricos da Escola de Frankfurt, constituiu a expressão política do grande capital monopolista alemão em crise, que recorreu ao terror reacionário de massas para esmagar o movimento operário e expandir-se rumo ao leste em busca de lebensraum e pilhagem. Foi contra esse bloco histórico de dominação burguesa em seu estágio mais violento que a União Soviética, mesmo sob a burocracia degenerada contrarrevolucionária comandada por Josef Stalin, opôs as bases econômicas e sociais da propriedade coletiva dos meios de produção. A guerra imperialista desnudou o caráter de classe do sangrento conflito: de um lado, a máquina militar do capital financeiro com sua ideologia racista e sobretudo antioperária; do outro, um Estado operário que, a despeito de suas deformações, havia liquidado a propriedade privada dos meios centrais de produção e demonstrou poder organizar a defesa a partir de uma racionalidade não submetida à busca do lucro.

APESAR DE STALIN

O fator decisivo para a vitória foi a economia planificada, cujos resultados analíticos foram sistematizados por Charles Bettelheim em “A Economia Alemã sob o Nazismo” e, de forma mais polêmica, nas investigações de E. H. Carr em “A História da Rússia Soviética”. Enquanto o capital monopolista alemão operava com relutância para converter fábricas à produção de guerra por cálculos de custo-oportunidade, a URSS realizou em semanas a transferência de indústrias inteiras para além dos Urais, uma façanha impossível sob a lógica da propriedade privada, onde cada capitalista buscaria proteger seu investimento individual. Essa imensa mobilização do trabalho socializado, centralizada pelo Gosplan, permitiu que a produção de tanques e aeronaves superasse a do conjunto da Europa hitlerista mesmo após a perda das bacias carboníferas e siderúrgicas ocidentais. Sob o marxismo, compreende-se que o planejamento eliminou a anarquia da produção, direcionando o excedente econômico para um único fim: a aniquilação do invasor nazi/fascista, provando na prática que o modo de produção fundado na propriedade social é qualitativamente superior para enfrentar crises totais.

No entanto, a façanha logística seria estéril sem a centralidade da luta de massas e a transformação do soldado em sujeito político consciente. Alexander Werth, correspondente em Moscou e autor de “A Rússia em Guerra 1941-1945”, descreve com riqueza o fenômeno que Marx antecipara há vários anos: a transformação da guerra imperialista em uma guerra popular patriótica e, em seu conteúdo mais profundo, revolucionária.

O Exército Vermelho não lutava apenas pelo território, mas pela defesa de uma experiência social que permitira a milhões de operários e camponeses o acesso à educação, à saúde e à cultura, símbolos da superação da velha ordem czarista e burguesa. A batalha de Stalingrado, imortalizada nas trincheiras casa por casa, funcionou como uma síntese dialética: a classe operária alemã, corrompida pela social-democracia e esmagada pelo nazismo, avançava como força de ocupação, enquanto a classe operária soviética, em todo seu furos, detinha os massacres da blitzkrieg. A politização do front, uma vez que os comunistas eram os primeiros a se lançar sobre as metralhadoras, demonstra que a consciência de classe se convertera em força material, um fenômeno subestimado pelas análises militares burguesas focadas apenas no poder de fogo.

AS RAÍZES DE UM MODO DE PRODUÇÃO COMO FATOR DECISIVO

Deve-se acrescentar que a vitória soviética só se materializou porque o Partido Comunista atuou como Estado-Maior da revolução na guerra, organizando a retaguarda e o front por meio de uma aliança estratégica entre proletários, camponeses, intelectuais e as nacionalidades oprimidas pelo czarismo. A célebre frase de Marx, “o ser social determina a consciência”, ilumina o sentido do êxodo industrial: os operários que desmontaram suas fábricas sob as bombas o fizeram porque se reconheciam como proprietários coletivos desses meios de produção. Em “O Significado da Segunda Guerra Mundial”, Ernest Mandel destaca corretamente que a direção stalinista cometeu erros táticos e estratégicos catastróficos no verão de 1941, mas a classe operária e o campesinato suprimiram a inépcia inicial da burocracia porque defendiam conquistas que transcendiam ao poder de Stalin.

General Zhukov
Além, é claro, contaram com a astúcia estrategista do General Georgy Zhukov, responsável por peitar um politicamente abatido “Koba” e reorganizar o Exército Vermelho (mas, este é outro ponto para se analisar posteriormente!). A resistência de Leningrado, onde um milhão de civis morreram de fome sem capitular, desafia qualquer explicação baseada no mero medo repressivo do regime stalinista. Em outras palavras, trata-se da interiorização da lógica de que não há pacto possível entre o mundo do trabalho socialista e a barbárie do capital monopolista em sua fase hitlerista.

O papel da URSS foi igualmente decisivo no plano internacionalista, pois serviu de polo de aglutinação para a resistência antifascista europeia e americana. Roy e Zhores Medvedev, em “O Círculo Secreto de Stalin”, documentam como, apesar da dissolução do Komintern em 1943, encerrado como gesto tático aos aliados ocidentais, os partidos comunistas da França, Iugoslávia, Grécia e Itália se tornaram a espinha dorsal da guerrilha, coordenando suas ações com o ritmo do avanço do Exército Vermelho. Os EUA entraram no conflito após muito vacilar (chegou a declarar simpatias ao anticomunismo hitlerista em dado momento).

A libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho foi a demonstração material de que a máquina de guerra nazista foi despedaçada sobretudo pelo poderio militar da terra que havia abolido a exploração do homem pelo homem. O “Dia D”, festejado no Ocidente como propaganda antissoviética, só foi possível porque 200 divisões nazistas já haviam sido moídas na Frente Oriental pela ofensiva do Exército Vermelho, um dado quantitativo que reflete a realidade qualitativa da luta de classes em escala planetária.

UMA VITÓRIA DO POVO SOVIÉTICO QUE ASSUSTOU O OCIDENTE CAPITALISTA

Enfim, a centralidade soviética não reside numa mística nacionalista russa, mas na demonstração histórica de que a classe trabalhadora, armada e organizada sob um Estado que liquidou a propriedade capitalista, possui uma capacidade de resistência e coesão que as democracias burguesas e o fascismo não podem se equiparar, posto que os portões de Berlim foram derrubados pelo soldado soviético que desfraldaram a bandeira da URSS sobre o Reichstag! Vale lembrar que a Europa esteve perto de rendição completa a Hitler, principalmente após a derrota da França e o isolamento político/militar da Inglaterra, precisamente entre maio de 1940 e meados de 1941, no zênite do nazismo.

Trotsky organizou o Exército Vermelho
A vitória não foi do “general inverno” ou da imensidão geográfica, como argumenta a historiografia reacionária norte-americana/europeia. Foi o triunfo do suor dos torneiros de Magnitogorsk, do sangue das tropas operárias de Moscou e da direção política que, mesmo burocraticamente deformada, ainda representava a negação dialética do capital. Os 27 milhões de soviéticos mortos não foram uma tragédia abstrata, mas o custo imposto pela burguesia alemã e mundial a um povo que ousou construir o socialismo em um só país. Sem a URSS, o fascismo teria subjugado a Europa, e a história subsequente do movimento operário mundial teria sido impossível. O nazismo foi abatido, sobretudo, no front onde a guerra foi mais ideológica, mais brutal e mais mortal. Ignorar essa centralidade é apagar a história do sacrifício que verdadeiramente aquebrantou a Wehrmacht.