sexta-feira, 15 de maio de 2026

78 ANOS DO ESTADO COLONIALISTA DE ISRAEL: da Nakba de 1948 à estrutura de Apartheid Sionista ou persistência da limpeza étnica e a resistência palestina

Nos dias atuais, os 78 anos da criação do Estado de Israel não representam uma narrativa de redenção nacional, mas a consolidação violenta de um projeto colonial de povoamento, gestado na matriz do imperialismo britânico e na crise do capitalismo europeu do século XIX. Nisso, a Resolução 181 da ONU, longe de um ato de justiça, operou como uma manobra jurídico-política das potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial para redesenhar o Oriente Médio segundo seus interesses geoestratégicos e petrolíferos, transferindo o fardo da culpa europeia pelo genocídio nazista para os ombros do povo árabe-palestino. Em destaque o sionismo, a ideologia da burguesia judaica europeia, que instrumentalizou uma dor histórica real para legitimar a despossessão material de uma população majoritariamente camponesa.

A LÓGICA ASSASSINA DO COLONIALISMO DE POVOAMENTO

 A criação de Israel deve ser entendida dentro do quadro teórico do colonialismo de povoamento, conceito desenvolvido por historiadores marxistas como Patrick Wolfe, que define este regime como aquele que busca substituir permanentemente a população nativa por colonos, não apenas explorá-la. A Resolução 181 da ONU (1947), que propôs a partilha da Palestina, foi uma expressão direta da cumplicidade imperialista (britânica e estadunidense) com o projeto sionista, ignorando o direito à autodeterminação do povo palestino, que compunha 67% da população da região à época.

A Nakba de 1948, objetivamente expulsou de mais de 750 mil palestinos e destruiu de forma sistemática mais de 500 vilarejos, foi o ato fundador político/material dessa entidade sionista, um processo de acumulação primitiva de terras executado por milícias criminosas como o Haganah e o Irgun, que impuseram uma limpeza étnica planejada e sistemática, oriunda do Plano Dalet, como condição sine qua non para estabelecer um Estado etnicamente “puro” e funcional à dominação do capital metropolitano na região.

A “catástrofe” palestina não foi um epifenômeno da guerra, mas um processo deliberado de limpeza étnica, com a destruição de 531 vilas palestinas, o deslocamento forçado de 750 mil pessoas e a proibição de seu retorno (Lei do Retorno de 1950, que concede cidadania a judeus do mundo todo, mas nega o direito de retorno aos refugiados palestinos). Este ato fundador estabeleceu a lógica racial do Estado israelense: a terra só pertence aos judeus, enquanto os palestinos são tratados como demografia inimiga a ser contida.

APARTEID PARA PLANEJAR E FACILITAR MASSACRES

 A natureza do Estado israelense só pode ser apreendida em sua totalidade quando desnudamos sua estrutura jurídico-política como um regime de supremacia racial, um “apartheid” que se sofistica e se aprofunda há quase 80 anos de genocídios planificados.

A autoproclamação de Israel como “Estado-nação do povo judeu” (Lei Básica de 2018) codifica juridicamente a hierarquia de cidadanias que já operava na prática: judeus israelenses gozam de privilégios exclusivos através da Lei do Retorno, enquanto os palestinos cidadãos de Israel são uma minoria de segunda classe, e os palestinos sob ocupação militar em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza são desprovidos de qualquer cidadania, submetidos a um regime de controle diferenciado que lembra os Bantustões sul-africanos, ou até mesmo os campos de concentração nazista.

Essa arquitetura racial não é um desvio, mas a lógica fundante do sionismo, que se constituiu desde Theodor Herzl como um movimento de “homens brancos” europeus imbuídos da missão “civilizatória” de construir um “muro contra a barbárie asiática”. A contínua expansão dos assentamentos coloniais, a demolição de lares, o roubo de recursos hídricos e a fragmentação territorial da Cisjordânia revelam um processo ininterrupto de acumulação por espoliação, no qual a violência estatal e paraestatal de colonos garante a expropriação da terra e dos meios de vida palestinos, sob a tutela militar, financeira e diplomática do imperialismo estadunidense e de seus consortes europeus (Inglaterra, França, Alemanha).

Nesta longa duração, a luta do povo palestino emerge como uma das mais resilientes e paradigmáticas resistências anticoloniais do século XX e XXI que, em sua dialética, internaliza a luta de classes da forma mais crua e apurada. Inicialmente enraizada na revolta do campesinato expropriado – como a Grande Revolta de 1936-1939 contra o Mandato Britânico e a colonização sionista –, a resistência se complexificou com a formação do proletariado palestino na diáspora e nos territórios ocupados, que forneceu a base social para a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

INTIFADA COMO RECURSO DESESPERADO DA POPULAÇÃO MASSACRADA

Entretanto, a capitulação da burguesia nacional palestina, encarnada nos Acordos de Oslo (1993) que transformaram a Autoridade Palestina em uma subcontratada da ocupação israelense, deslocou o centro de gravidade da luta para as forças populares e a sociedade civil. Tendência que se manifestou na Primeira Intifada (1987) ou a insurreição das pedras, dos comitês populares e das greves gerais contra o trabalho assalariado na economia israelense, num claro acerto de contas com a superexploração.

Já a resistência contemporânea em Gaza, onde se localiza um campo de concentração a céu aberto com 2,3 milhões de pessoas submetidas a um bloqueio criminoso, deve ser compreendida não como um “conflito étnico-religioso” atemporal, mas como a expressão aguda da luta de classes em escala internacional: o direito à vida e ao retorno dos refugiados contra a lógica necropolítica do capital sionista e seus testes de armas e tecnologias de controle vendidos mundo afora.

O septuagésimo oitavo aniversário do Nakba, portanto, não encontra um colonialismo exaurido, mas sim um regime que se reinventa para aprofundar a pilhagem, acelerando a anexação formal da Cisjordânia e normalizando relações com Estados árabes reacionários por meio dos Acordos de Abraão, ou seja, a fusão entre os interesses das burguesias compradoras regionais e o capital financeiro globalizado hegemonizado pelos EUA. A causa palestina desvela a podridão da ordem internacional burguesa e de sua retórica de direitos humanos, que se fragmenta quando desafiada pelo lobby sionista.

DESTRUIÇÃO DO ESTADO DE ISRAEL E DO NAZISSIONISMO

Os EUA, desde a Guerra Fria, trataram Israel como uma “porta-aviões não afundável” no Oriente Médio, um enclave militar, um posto avançado do imperialismo. O acordo de 1967 entre EUA e Israel, selado após a vitória militar israelense, transformou o país em principal aliado não-OTAN dos EUA, recebendo mais de US$ 300 bilhões em ajuda militar até 2026. Essa relação não é altruísta, uma vez que Israel serve como agente de contenção antiárabe e antissoviética (durante a Guerra Fria) e, posteriormente, como garantia da hegemonia petrolífera dos EUA no Golfo Pérsico.

Contudo, a vitória duradoura contra o supremacismo racial e o colonialismo de povoamento israelense não se dará por uma solução binacional burguesa ou pela partilha de uma terra mutilada, mas pela superação radical dessa estrutura bastante similar ao nazismo e suas SS. Ela passa, necessariamente, pela construção de um bloco histórico contra-hegemônico na região, calcado na aliança entre camponeses e proletários palestinos com as classes trabalhadoras judaicas que rompam com a ideologia sionista, unificando-se pela derrubada do sistema capitalista-imperialista que sustenta o Estado de Israel. Enquanto houver Palestina ocupada, latejará a ferida aberta que recorda à humanidade que a emancipação nacional não será plena sem a emancipação social, e que o internacionalismo proletário se mede na solidariedade concreta com os esmagados pela máquina colonial.