terça-feira, 6 de outubro de 2026

ELEIÇÕES 2026 E A SOMBRA ESCABROSA DE WASHINGTON SOBRE AS URNAS: o Brasil diante da nova e cortante maré conservadora no labirinto global

O primeiro turno das eleições de 2026 produziu um resultado que ultrapassa a simples disputa entre candidatos: Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), levando a eleição presidencial para o segundo turno no dia 25 de outubro. A diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos revela um país profundamente dividido, mas evidencia também uma esquerda incapaz, até aqui, de converter a defesa institucional da democracia em uma mobilização social suficientemente ampla. O dado mais perturbador talvez esteja fora da contagem dos vencedores: 33.469.244 eleitores não compareceram às urnas, correspondendo a 21,08% do eleitorado, índice superior ao de 2022 e o mais alto desde 1998. Na disputa presidencial, houve ainda 2.300.781 votos brancos (1,84%) e 3.674.149 nulos (2,93%). A soma de ausentes, brancos e nulos revela uma massa eleitoral que não pode ser tratada simplesmente como “despolitizada”: ela expressa também desencanto, descrença e uma crise de representação que atinge o conjunto do sistema político.

UM CONGRESSO AINDA MAIS INIMIGO DO POVO

No Congresso Nacional, contudo, a fotografia é ainda mais nítida em uma conjuntura em que a direita saiu fortalecida. O PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada da Câmara desde a redemocratização, enquanto a federação PT-PCdoB-PV ficou com 88 cadeiras. No Senado, o avanço foi ainda mais expressivo: o PL conquistou 19 das 54 vagas em disputa e chegará a 2027 com 28 senadores, a maior bancada partidária da Casa desde 1988; o PT terá nove e o MDB oito. Nas Assembleias Legislativas e na Câmara Legislativa do Distrito Federal, foram renovadas 1.059 cadeiras, com forte presença das forças conservadoras.

Não se trata apenas de uma vitória eleitoral bolsonarista, mas da consolidação de uma estrutura parlamentar capaz de pautar orçamento, costumes, segurança pública, relações trabalhistas e a própria relação entre Executivo, Congresso e Judiciário. É precisamente essa normalização da extrema direita como força institucional como uma das características centrais da atual onda conservadora internacional.

GOVERNOS ESTADUAIS SEGUEM A VEREDA REACIONÁRIA

Nos governos estaduais, a tendência não desapareceu; ao contrário, adquiriu dimensão nacional. Vinte estados definiram seus governadores já no primeiro turno, número recorde, enquanto Acre, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Tocantins, além do Rio de Janeiro, terão segundo turno. O PL elegeu cinco governadores de imediato, incluindo Sérgio Moro no Paraná, Jorginho Mello em Santa Catarina, Luciano Zucco no Rio Grande do Sul, Marcos Rogério em Rondônia e Arthur Henrique em Roraima; o PSD conquistou quatro governos; PT e Republicanos, três cada. Nos maiores colégios eleitorais, Tarcísio de Freitas foi reeleito em São Paulo e Cleitinho Azevedo venceu em Minas Gerais. O PT preservou importantes bastiões no Nordeste, com Jerônimo Rodrigues na Bahia, Elmano de Freitas no Ceará e Rafael Fonteles no Piauí. O mapa sugere, portanto, uma direita que deixou de ser apenas força de oposição nacional e passou a ocupar simultaneamente territórios do Executivo e Legislativo em diferentes níveis do Estado.

INGERÊNCIA E ENGRENAGENS POLÍTICAS DO IMPERIALISMO COMO TENDÊNCIA MUNDIAL NOS PAÍSES SEMICOLONIAIS

A dimensão norte-americana não deve ser ignorada, embora seja necessário separar pressão comprovada, alinhamento político e alegações de interferência clandestina. Em setembro, a Abin alertou para risco de influência ou interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro.

Em julho, o Brasil recusou vistos a dois funcionários do governo Trump que pretendiam visitar o país para tratar de “integridade eleitoral”, segundo autoridades brasileiras e reportagem da Reuters, enquanto o Departamento de Estado negou qualquer intenção de interferir. Depois do resultado, Trump classificou a liderança de Flávio Bolsonaro como uma “grande vitória”, confirmando a dimensão política dessa afinidade internacional.


Essa influência aparece inserida numa nova articulação transnacional da direita, combinando interesses geopolíticos, pressão econômica, anticomunismo renovado, discurso antichinês e convergência ideológica com governos conservadores da região.

A engrenagem internacional, porém, não se resume ao voto. A influência estrangeira hoje opera menos por hacking ostensivo e mais por campanhas de desinformação multimilionárias e narrativas adaptadas à realidade nacional emergidas de um repertório que Washington historicamente refinou na América Latina, alternando intervenções militares, golpes de bastidores e, agora, algoritmos, conforme documentação sobre sete décadas de ingerência na região.

No caso brasileiro, o cenário é especialmente sensível, pois estamos diante de um pleito artificialmente polarizado, qualquer operação, seja de financiamento irregular, seja de bots e deepfakes, pode ser decisiva, e a simples denúncia raramente é suficiente para neutralizar efeitos em eleições decididas por margens estreitas. Por exemplo, quase non sense, uma tapioca derrubou um ministro da frente popular, mas o roubo de 135 milhões dos cofres públicos “qualifica” um candidato.

Os absurdos índices alcançados pela extrema direita não resulta de anomalia local, mas corresponde a capítulo de uma onda global. A ascensão da extrema-direita, amalgamada com populismo autoritário que conjuga antiestablishment, nativismo e autoritarismo, ou “neoliberalismo autoritário” e radicalismo de direita, mostra que o fenômeno se alimenta de crises estruturais onde predomina a precarização, desigualdade e fragmentação identitária e se recombina em cada formação social, do Milei argentino ao bolsonarismo brasileiro em sua política de mais baixo nível. 

Nessa leitura, o 2026 brasileiro é menos uma vitória pessoal de Flávio do que a expressão, nas urnas, de uma hegemonia conservadora em rearranjo, que aproveita o desgaste do lulismo, o medo da mudança e a polarização oriunda da lawfare e das fakenews para normalizar discursos antes confinados às margens.

O sentido histórico mais amplo do pleito brasileiro é, portanto, o avanço internacional de uma direita que aprendeu a transformar ressentimento social, medo da violência, guerras culturais e desconfiança das instituições em capital eleitoral. Reações culturais/costumes cimentadas no senso comum podem alimentar o populismo autoritário como o que vem ocorrendo.

DESILUSÃO E FRACASSO DA DEMOCRACIA BURGUESA

Estudos mais recentes, como o de Koen Damhuis e Ekaterina Rashkova sobre a “política do ressentimento”, aprofundam o papel das frustrações sociais e da construção de inimigos na mobilização da direita radical. A atual ressurgência da extrema direita deve ser relacionada à crise da hegemonia mundial, às tensões da acumulação capitalista e à rivalidade geopolítica. No Brasil, chama atenção para o ressentimento tóxico e o ódio como componentes da deterioração democrática e jogo intervencionista do imperialismo ianque auxiliado pela mídia corporativa (Rede Globo, Estadão, Folha de S. Paulo etc.).

Em suma, o diagnóstico é claro: disputa eleitoral, sem enfrentamento da propriedade privada dos meios de comunicação e sem democratização radical do sistema de mídia e do financiamento político, tende a reproduzir o domínio de classe e assunção das várias frações da burguesia, típificadas pelo fascismo.

A democracia liberal é, estruturalmente, uma democracia capitalista, e a alternativa passa por transformar as relações sociais de produção, não apenas os ocupantes dos cargos. Enquanto isso, o 2026 brasileiro se inscreve no atlas da direita em expansão, sob o olhar e a mão — visível e não tão invisível — de Washington, reforçando que a batalha central não se encerra nas urnas, mas na luta pelo controle do sentido comum e pela superação do capital que, por ora, segue vestindo o “manto da democracia burguesa”.