sexta-feira, 10 de julho de 2026

COPA DO MUNDO 2026: fé, placar e capital, epígrafes da derrota do Brasil e síntese de um projeto neoliberal de exportação em decadência


A imagem que ficou da eliminação brasileira na Copa de 2026 não veio do lance fatal, mas do instante seguinte, quando vários jogadores ajoelhados, em círculo, olhos fechados, entregando o silêncio da derrota a Deus. A cena, repetida à exaustão nas transmissões, sintetiza um esgotamento que vai muito além da tática que revela o retrato de uma seleção que substituiu a leitura crítica do jogo pela entrega mística e, ao fazê-lo, naturalizou sua condição de alienação de seu meio e mercadoria no balcão global do futebol.

A Catedral do Consumo que a FIFA ergueu

Pode-se afirmar, a Copa de 2026 não foi organizada, mas precificada. A FIFA operou o torneio como uma holding de entretenimento que licencia territórios, vende pacotes de hospitalidade e gerencia a miséria ao redor dos estádios como externalidade aceitável, resultando numa absoluta gentrificação dos estádios, antes concentradores de grandes massas populares.

A expansão para 48 seleções, vendida ao público como democratização, serviu sobretudo para multiplicar contratos de transmissão e permitir que patrocinadores exibissem suas marcas em mais mercados simultâneos de forma instantânea. O futebol, nesse ambiente, é uma embalagem, pois o que se consome de fato são planos de dados, apostas esportivas e refrigerante. A derrota do Brasil, portanto, não estragou a festa de ninguém no high command da entidade, uma vez que a mercadoria “seleção brasileira” foi entregue, gerou audiência e será substituída na prateleira do próximo mundial sem prejuízo.

CBF COMO ENTREPOSTO COLONIAL

Dentro desse tabuleiro, a Confederação Brasileira de Futebol ocupa o papel histórico de feitoria, edificada numa estrutura que não cria, apenas coleta e despacha. Suas federações estaduais, sustentadas por acordos de cúpula e votos proporcionais que mantêm os mesmos grupos no poder, funcionam como postos de triagem de garotos pobres.

A CBF não dirige o futebol brasileiro, ela o exporta ainda verde. As comissões técnicas que se sucedem entre crises são menos formuladoras de um projeto de jogo do que vitrines para a próxima leva de ativos sub-20 que serão negociados antes de completar duas temporadas no país. A entidade sobrevive da ilusão de que revelar talento é suficiente, quando na verdade o que se revela é a total ausência de um pensamento coletivo de longo prazo.

O ATLETA COMO MERCADORIA E O DESENRAIZAMENTO PROGRAMADO

O jogador brasileiro hoje é produzido em escala, com prazo de validade e destino de exportação. Aos 16 anos já tem empresário, aos 18 já pertence a um fundo de investimento que fatiou seus direitos econômicos, aos 20 já defende um clube médio europeu que o comprou por atacado e tem cotação na bolsa de valores. O vínculo com a camisa nacional é residual, uma escala técnica entre uma janela de transferência e outra.

Não há tempo para que se forme um repertório tático comum, uma cultura de seleção, uma identidade que resista à pressão do jogo eliminatório. O que chega à Copa é um mosaico de individualidades treinadas em diferentes escolas, falando diferentes línguas táticas, unidas apenas pelo passaporte e pelo mesmo agente que enriquece ano a ano sob ruínas do futebol brasileiro.

RELIGIÃO COMO BIOMBO DA CONSCIÊNCIA CRÍTICA

E aqui se insere o componente que muitas análises preferem contornar ou simplesmente ocultar, ou seja, a religiosidade ostensiva que tomou conta do vestiário brasileiro eque não é um detalhe folclórico, mas um fator político bastante significativo que opera como limitador da leitura objetiva das derrotas e das falhas técnicas. Quando um jogador repete que “tudo é propósito de Deus”, que “a vitória e a derrota vêm d’Ele”, instala-se uma blindagem espiritual que desobriga a autocrítica. Não se analisa a fragilidade tática, a leitura de jogo, a disciplina posicional, a tudo atribui-se o resultado a um plano divino que, por definição, não se questiona.

Claro que esta visão de mundo não é inocente. A teologia da prosperidade, que colonizou boa parte do futebol brasileiro por meio de pastores-agentes e capelães pessoais, marketing como preposto de agentes e olheiros, prega que o sucesso é sinal de bênção e o fracasso, uma provação a ser superada individualmente pela fé. O efeito prático é uma equipe que internaliza a derrota como “vontade de Deus” em vez de compreendê-la como produto de escolhas erradas, de uma preparação insuficiente, de um sistema que os trata como peças intercambiáveis. A oração substitui a reunião tática, a entrega espiritual ocupa o espaço da revolta e o senso crítico coletivo. O jogador se ajoelha, mas não se organiza.

Essa espiritualidade alienante se encaixa perfeitamente na lógica do capital, na condição em que o sujeito que atribui tudo a Deus não questiona a estrutura que o explora. Ele entende seu valor de mercado como uma graça individual, jamais como fruto de uma cadeia de exploração que começa na base e termina nos balanços de clubes europeus. A religião, nesse contexto, funciona como o ópio que Marx descrevia, mas aplicado ao campo esportivo, a qual anestesia a percepção da condição de mercadoria e neutraliza qualquer impulso de transformação coletiva.

DERROTA COMO ESGOTAMENTO ANUNCIADO TAL QUAL AS CRISES CRÔNICAS DO CAPITALISMO

O Brasil perdeu na Copa de 2026 porque foi a campo com um time que não se reconhecia como time, ou grupo, treinado por um técnico que não tem qualquer representatividade cultural junto à paixão popular pelo futebol, e embalado por um discurso religioso que confunde resignação com resiliência. Perdeu porque o futebol virou logística de exportação e a CBF, um terminal alfandegário. Perdeu porque a FIFA precisa que as seleções sejam apenas marcas competitivas, não projetos de nação. E perdeu, sobretudo, porque se convenceu de que rezar é mais importante que planejar.

Enquanto os jogadores se ajoelhavam diante das câmeras, os executivos da FIFA contabilizavam o engajamento digital e os dirigentes da CBF renovavam os contratos de patrocínio. O silêncio da bola foi preenchido pelo tilintar das moedas. E o Brasil, mais uma vez, voltou para casa acreditando que Deus é brasileiro quando, na verdade, o que está em campo é uma sociedade anônima em disputa.

Talvez por isso a derrota de 2026 deva ser lida menos como um acidente esportivo e mais como uma alegoria histórica. O futebol nunca esteve separado das relações sociais que o produzem.

Como ensinava Gramsci, toda disputa cultural é também disputa por hegemonia. Enquanto o espetáculo for governado pela lógica da acumulação, a criatividade dará lugar à eficiência comercial; o torcedor será convertido em consumidor; o atleta, em ativo financeiro; e a seleção, em vitrine de negócios.


O país continuará chorando eliminações sem perceber que a partida decisiva acontece muito longe do estádio. Ela é disputada nos escritórios onde contratos substituem sonhos, onde balanços substituem paixão e onde o capital, como árbitro invisível, decide antecipadamente quais valores permanecerão em campo. Talvez a verdadeira reconstrução do futebol brasileiro só comece quando a bola voltar a pertencer às ruas, quando a camisa voltar a representar seu povo e quando o jogo recuperar aquilo que o mercado jamais conseguiu compreender: que a beleza de um drible nunca coube numa planilha de lucros.


Sugestões de leitura que embasaram a análise                                  

BROHM, Jean-Marie. Sport: A Prison of Measured Time. London: Ink Links, 1978. (Crítica marxista clássica ao esporte como aparelho ideológico.)

GALEANO, Eduardo. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2014. (Uma elegia à beleza do jogo e à sua corrupção pelo capital.)

GOLDBLATT, David. The Age of Football: The Global Game in the Twenty-first Century. London: Macmillan, 2019. (Mapeamento do futebol como negócio global e geopolítica.)

HELAL, Ronaldo. Passes e Impasses: Futebol e Cultura de Massa no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1997. (Comunicação, identidade nacional e mercantilização do ídolo.)

MARX, Karl. Para a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução. (Onde se formula a célebre metáfora da religião como “ópio do povo”.)

RIAL, Carmen. “Jogadores de futebol e a fé que move montanhas”. In: Horizontes Antropológicos, v. 14, n. 30, 2008. (Etnografia da religiosidade neopentecostal entre atletas.)

TOLEDO, Luiz Henrique de. Lógicas no Futebol. São Paulo: Hucitec/Fapesp, 2002. (Antropologia do futebol brasileiro, profissionalização e mercado.)