sábado, 4 de julho de 2026

O 4 DE JULHO DOS ESTADOS UNIDOS – ENTRE FOGOS DE ARTIFÍCIOS E SILÊNCIOS: a revolução como negócio de classe e supremacismo racial

O 4 de julho, 250 anos da independência dos EUA, costuma ser narrado como um levante espontâneo de um povo sedento por liberdade. Uma análise materialista, contudo, revela uma disputa entre elites coloniais que viam seus interesses econômicos estrangulados pela metrópole. Não se tratou de um movimento unificado das massas, mas de uma ruptura conduzida por comerciantes, traficantes de escravos, latifundiários e especuladores de terra que se sentiam sufocados pelo mercantilismo britânico.
Como argumenta Zinn (1980), “em 1776, certas pessoas importantes das colônias inglesas tomaram uma decisão que se revelaria historicamente significativa [...], mas elas não representavam os interesses de toda a população… a retórica da igualdade coexistia com profundas desigualdades sociais”. A taxação sem representação era, acima de tudo, um entrave à plena acumulação de capital dessas frações de classe, que usaram o discurso iluminista da liberdade para legitimar um projeto de poder doméstico.

O Grito de Liberdade e os Grilhões Reais onde POUCOS são livres...

O parágrafo mais celebrado da Declaração de Independência proclama que “todos os homens são criados iguais” e dotados de direitos inalienáveis à “vida, liberdade e busca da felicidade”. A contradição histórica é atroz e hipócrita, pois o autor do texto, Thomas Jefferson, possuía mais de uma centena de pessoas escravizadas, mais da metade dos signatários eram escravocratas empederrnidos. A cláusula original que condenava o tráfico negreiro foi suprimida do documento final sob pressão da Geórgia e da Carolina do Sul. A “liberdade” proclamada era a liberdade da burguesia nascente de dispor de propriedade, inclusive de corpos e força humana sem interferência externa da “metrópole”. A revolução estadunidense, portanto, nasceu marcada por uma “emancipação” que alarga os grilhões dos trabalhadores e racializa a opressão para garantir a extração de mais-valia nos algodoais, nas docas e nas plantations.

A falaz assertiva “todos os homens são criados iguais” não encontrava correspondência na realidade concreta da nação que emergia das profundezas coloniais. Não podemos esquecer que milhões de africanos escravizados permaneceram submetidos ao regime escravista, povos indígenas continuaram sendo expulsos e/ou exterminados pela política genocida dos dirigentes em sua assunção política, as mulheres permaneceram excluídas da participação política.

Para uma interpretação marxista, a igualdade proclamada dizia respeito sobretudo aos grandes proprietários livres, garantindo-lhes segurança jurídica para expandir seus negócios e consolidar o capitalismo nascente. Em A Ideologia Alemã, Karl Marx e Friedrich Engels argumentam que as ideias dominantes de uma época tendem a refletir os interesses da classe dominante, perspectiva que ajuda a compreender as limitações sociais da independência norte-americana.

Terra, Genocídio e a Fronteira como Válvula de Escape

A independência também foi a certidão de óbito para as nações indígenas. A Proclamação Real de 1763, que limitava a expansão colonial para além dos Apalaches, era um dos principais motivos de revolta dos especuladores fundiários, entre eles George Washington. Romper com Londres significava liberar a marcha para o Oeste como um imenso processo de pilhagem, limpeza étnica e acumulação primitiva. Para a força de trabalho branca empobrecida das cidades, a promessa perpétua de “terra livre”, aquela expropriada dos povos originários, funcionou como ideologia e amortecedor de tensões, evitando que o radicalismo dos motins pré-revolucionários se voltasse contra a oligarquia nativa. A república que nascia já inscrevia, como seu motor vital, o colonialismo de povoamento e seu racismo e eugenia do século XIX (fonte de admiração e inspiração de Hitler e sua escumalha nazista).

Tudo isso não se tratou de uma falha moral isolada, mas de uma contradição material fundamental do capitalismo agrário escravista em formação. Como apontado por Horne (2014), o ímpeto pela independência foi, em grande parte, motivado pelo medo da elite colonial de que a Grã-Bretanha estivesse se movendo em direção à abolição da escravidão, o que destruiria a base de sua riqueza. Portanto, a “liberdade” cantada nos hinos era, estruturalmente, a liberdade do capitalista de explorar a força de trabalho escravizada sem a interferência da Coroa.

A independência criou as condições institucionais para o extraordinário desenvolvimento econômico dos Estados Unidos durante os séculos XIX e XX. Contudo, esse crescimento esteve profundamente associado à expansão territorial sobre terras indígenas, à manutenção da escravidão até 1865 e, posteriormente, à consolidação de uma política externa cada vez mais intervencionista. A independência inaugurou, a materialidade de um Estado nacional voltado para a acumulação capitalista, cuja expansão interna e externa acompanhou as necessidades do capital.

Tratou-se da acumulação primitiva de capital em que a apropriação violenta das terras a oeste sob a justificativa ideológica do “Destino Manifesto” e a consolidação do modo de produção escravista no Sul foram as verdadeiras consequências materiais daquela independência.

Independência para Quem? A Contrarrevolução Constitucional

Se 1776 houve algum sopro radical manifestos nos motins de marinheiros, nos comitês populares, na memória da Rebelião de Shays, a Convenção de Filadélfia de 1787 sepultou esse enorme potencial. Beard (1913) demonstrou com fartura documental que a Constituição foi “essencialmente um documento econômico baseado no conceito de que os direitos fundamentais da propriedade privada precedem o governo e estão moralmente além do alcance de maiorias populares”. Os mecanismos contramajoritários, o Senado indireto, o Colégio Eleitoral, o veto presidencial foram desenhados para blindar a riqueza mobiliária e imobiliária contra as “facções” populares. A independência se concluiu, pois, como uma operação de consolidação do Estado burguês, em que o 4 de julho se tornou o mito de origem despolitizado de uma nação gerida como uma sociedade anônima de acionistas.

O mito fundador de uma nação foi tomado como cimento da construção do Estado hegemônico dominado por plutocratas. Ao longo do tempo, o 4 de julho transformou-se em um poderoso mito nacional, celebrado como símbolo da liberdade e da excepcionalidade americana. Essa narrativa, difundida pelas escolas, pelos meios de comunicação e pela cultura política, fortaleceu a identidade nacional e legitimou a posição dos Estados Unidos como referência mundial de democracia liberal.
Entretanto, historiadores críticos lembram que toda memória nacional é seletiva: enquanto determinados episódios são exaltados, outros permanecem marginalizados. Hobsbawm (1984) demonstra que muitas tradições nacionais são construídas para consolidar projetos políticos e fortalecer a legitimidade dos Estados modernos, fornecendo-lhes as bases da estrutura imperialista, no caso dos Estados Unidos da América.

Que Celebração é essa?

Com o tempo, o 4 de julho foi esvaziado de sua memória de classe e convertido em espetáculo patriótico político-ideológico e pela ideia de superioridade: a farsa que, segundo Marx, se repete quando a história se desenrola como tragédia. A comemoração serve hoje para ocultar que a república fundada em 1776 é a matriz do imperialismo contemporâneo, uma potência que fez das “liberdades” dos seus documentos fundacionais a cobertura ideológica para golpes, intervenções e uma economia global organizada em benefício do capital monopolista/financista.

Não há, contudo, apenas denúncia a fazer; a mesma história guarda as lutas dos que se recusaram a cantar o hino na voz cansadas e ensanguentadas dos escravizados que fugiram para o exército britânico em troca da liberdade, dos indígenas que resistiram, os trabalhadores que se insurgiram. Recordar esses silêncios na data dos fogos de artifício é uma tarefa política da maior envergadura, pois, como insistia Walter Benjamin, escovar a história a contrapelo é o único gesto que pode arrancar a tradição do conformismo.

Entre a emancipação política e os limites da emancipação social

Enfim, a independência dos Estados Unidos representou um marco histórico decisivo na consolidação do capitalismo moderno e das revoluções burguesas do século XVIII. Ela rompeu os vínculos coloniais com a Inglaterra e ampliou direitos políticos para determinados segmentos da população, mas não promoveu uma transformação estrutural das relações sociais de produção nem eliminou as formas de exploração existentes. Ao contrário, aprofundou-a e preservou a propriedade privada como fundamento da nova ordem e adiou conflitos centrais, como a escravidão e a questão indígena. Assim, o 4 de julho pode ser compreendido simultaneamente como um acontecimento revolucionário e conservador. Ou seja, revolucionário por romper com o domínio colonial e consolidar o Estado nacional; conservador por manter intactas as bases econômicas e sociais que sustentavam o poder das elites proprietárias. Essa contradição permanece essencial para compreender tanto a formação histórica dos Estados Unidos quanto os debates contemporâneos sobre liberdade, democracia e desigualdade.

Fontes consultadas:                                                            

BEARD, Charles. An Economic Interpretation of the Constitution of the United States (1913).

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1984.

Horne, Gerald. A Contrarrevolução de 1776 (2014).

James, C.L.R. Os jacobinos negros: Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos. São Paulo: Boitempo, 2000. [Original em inglês: The Black Jacobins, 1938.]

LENIN, Vladimir I. O Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo.

WOOD, Gordon S. The Radicalism of the American Revolution. New York: Vintage Books.

ZINN, Howard. A People's History of the United States. New York: HarperCollins, cap. 4 – 1980.