Jogadores, Trabalho, fetichismo, mercadoria e neocolonialismo
A exportação de talentos dos países periféricos para os centros hegemônicos do capital reflete uma divisão internacional do trabalho esportiva, esvaziando os campeonatos locais em prol de um espetáculo transnacional. Como bem analisa o sociólogo Maurício Murad em sua obra sobre a sociologia do futebol, essa mercantilização extrema retira do esporte seu caráter lúdico original, subordinando-o inteiramente às leis frias da valorização do capital e do mercado financeiro. Funciona como uma espécie de neocolonialismo na contemporaneidade. Por exemplo, a maioria dos atletas franceses vêm de suas colônias superexploradas (espoliadas ao extremo) na África!No modelo capitalista do futebol, os jogadores assumem dupla condição de produtores e mercadorias. Sob contrato, vendem sua força de trabalho esportiva (produzindo “espetáculo”), mas também são vendidos entre clubes como mercadorias no mercado de transferências, como se fossem commodities humanas. A Lei Pelé (1998) e anteriores reformas regulamentaram esses contratos, mas não alteraram a concentração de renda, como demonstram estudos recentes, onde apenas uma pequena parcela de jogadores (e de clubes centrais) recebe a maior parte dos salários e rendimentos, perpetuando a desigualdade interna. Muitos jovens atletas de países semicoloniais imbuídos do sonho da fama estão atuando sob condições escravistas na Europa.
Nesse contexto, aplica-se o fetichismo da mercadoria, na condição em que o jogador ultrapassa seu valor de uso atlético e adquire uma aura mística aos olhos da torcida, ocultando o trabalho social coletivo que sustenta seu “valor de troca” como atleta. Ao mesmo tempo, extraem-se mais-valia do trabalho desses atletas: os lucros exorbitantes com bilheteria, transmissões e marketing superam (em lucro) o salário (já milionário) pago ao jogador. A relação de classe fica explícita: os jogadores são empregados, enquanto clubes e investidores (vinculados às redes de patrocínio e mídia) se apropriam e se locupletam com o excedente gerado.
Empresários, Patrocinadores, Emissoras e Financeirização
Em nível global, a racionalidade neoliberal transformou os jogadores em meras commodities e instrumentalizou o futebol para fins comerciais. No Brasil, clubes financiam-se via patrocínios de multinacionais (que muitas vezes exercem práticas rentistas, capturando renda sem produzir o jogo) e vendem porcentagens dos direitos econômicos de atletas, prática antes comum de “terceirização” de direitos.Os patrocinadores, as emissoras de televisão e os fundos financeiros transformam o jogo num ativo global, e as entidades gestoras — CBF e federações estaduais — funcionam como aparelhos privados de hegemonia que monopolizam o calendário, os direitos de transmissão e a distribuição de privilégios. As transmissoras de TV (até pouco tempo atrás oligopólio midiático da Rede Globo no Brasil) compram direitos por fortunas, tornando-se rentistas por repassar as partidas ao público. Essa dinâmica pressiona custos dos clubes (dívidas altas para contratar craques) e amplia o papel do capital financeiro.
A Copa do Mundo de 2014 no Brasil, analisada por Klein (2007) como parte da “doutrina do choque”, exemplifica como megaeventos servem para transferir riqueza do erário para construtoras e patrocinadores, legalizando um saque sob o manto da festa popular e do patriotismo para posteriormente acusar governos e empresários de corruptos em nível internacional (lawfare) e assim destruir forças produtivas do país (operação “lava jato”).
Para garantir a reprodução desse sistema, a superestrutura do futebol materializada em entidades como a CBF, federações estaduais e a FIFA atua não como uma árbitra neutra, mas como comitê gestor da burguesia esportiva. Essas instituições monopolizam as regras, os calendários e os direitos de transmissão, sufocando os clubes menores e garantindo que o fluxo de dinheiro se concentre no topo da pirâmide. A corrupção endêmica nesse meio não é uma simples “falha moral” de dirigentes, mas uma característica estrutural do capitalismo tardio, onde as instituições privadas se fundem para proteger seus monopólios. O dinheiro sujo e as negociatas obscuras são inerentes à acumulação primitiva e contínua, revelando que a “governança” esportiva é, na verdade, um mecanismo de extração de renda e controle político das massas populares.
Corrupção, Crime e Captura Regulativa
O Estado esportivo (entes como CBF e federações) e a superestrutura jurídica não operam de forma neutra na mercadoria futebol. O Estado burguês é essencial à lógica capitalista pois por ele se realizam as trocas de mercadorias e a exploração da força de trabalho. A CBF e as federações regionais mantêm notória autonomia e enfrentam escândalos constantes (dívidas, rombos permanentes e inexplicáveis), diretores são frequentemente acusados de desviar verbas, favorecimento e nepotismo.
No Brasil, o sociólogo Murad (2012), detalha os vínculos orgânicos entre federações estaduais e o jogo do bicho, mostrando que a estrutura cartorial do poder futebolístico local sempre dependeu de alianças com a contravenção para financiar campanhas e manter currais eleitorais, numa simbiose que torna a corrupção o próprio ar que o sistema respira.
É nesse terreno fértil da superestrutura monopolista que o crime organizado encontra seu espaço de atuação, estabelecendo uma simbiose perversa com o futebol legalizado. A infiltração de máfias, milícias e operadores do jogo do bicho nas diretorias de clubes e federações, historicamente no Brasil e contemporaneamente na Europa, demonstra como o capital ilícito utiliza o esporte para lavagem de dinheiro e legitimação social, além de apropriação de símbolos nacionais pela extrema-direita fascista.
O desfecho dessa estrutura econômica recai sobre a classe trabalhadora, que é duplamente expropriada: financeiramente, pelos preços abusivos dos ingressos e transmissões, e simbolicamente, pela alienação de sua própria criação. O torcedor, outrora protagonista e participante ativo da festa, foi convertido em mero consumidor passivo de um espetáculo alienante, no qual a arte sucumbiu à lógica fria do capital.
Essas contradições não são falhas acidentais do futebol mercadoria, são em suma sua essência. O espetáculo, como apontou Debord (1967), naturaliza a desigualdade e oculta as relações de exploração, funcionando como ideologia viva do capitalismo tardio. Enquanto o torcedor é transformado em consumidor passivo, as engrenagens seguem girando: empresários acumulam, cartolas negociam cargos, patrocinadores vendem estilos de vida e o crime organizado lava dinheiro entre uma contratação midiática e uma eleição de federação. Assim, a verdadeira reforma do futebol não será feita com códigos de ética ou tribunais esportivos, mas com desmercantilização radical e controle popular das entidades que hoje privatizam o jogo e socializam suas mazelas.
Fontes consultadas:
Agência Senado. Kajuru repercute lavagem de dinheiro envolvendo PCC e clubes da Série A. Senado Notícias, 21/08/2024.
ARAUJO, Lucas Giachetto de; GIGLIO, Sérgio Settani. “O Capital no futebol: uma análise da mercadoria jogador”. Cadernos de História, v. 22, n. 37, p. 109–126, nov. 2021.
AZEVEDO, Carlos; REBELO, Aldo. A corrupção no futebol brasileiro – Relatório final da CPI
Brohm, Jean-Marie. Sport: A Prison of Measured Time (1978)
CARVALHO, Renan; ALMADA, Pablo. “Da Lei Bosman ao sportswashing: a racionalidade neoliberal no futebol global”. Revista Ambivalências, v. 12, n. 24, p. 325–346, 2024.
CBF-Nike. São Paulo, 2001. (Texto do relatório da CPI da CBF e Nike).
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo (1967)
HILL, Declan. The Fix: Soccer and Organized Crime (2008)
Klein, Naomi. The Shock Doctrine (2007)
MARTINS, Mariana Zuaneti; REIS, Heloisa Helena Baldy dos. O mercado de trabalho no futebol brasileiro: crescimento e desigualdades salariais e regionais”. Sociedade e Estado, v. 40, n. 03, 2025.
Murad, Maurício. A Violência e o Futebol (2012)
Periodicos PUC Minas (Araujo & Giglio) – artigo citado.
Senado Federal (Agência Senado) – notícia citada.
Outros: Marx, K. O Capital (citações teóricas secundárias em Araujo & Giglio, 2021) (para conceitos de fetichismo da mercadoria, mais-valia).
Foto 1: atletas se deliciam com bife coberto de ouro após a Copa do Mundo de 2022.
Foto 2: A bola e o lucro.
Foto 3: A Fifa é a pirâmide da corrupção capitalista no futebol



