Como demonstra Peter Dale Scott em The Road to 9/11, a chamada “deep politics” não se refere a uma conspiração monolítica, mas à convergência estrutural entre agências de inteligência, frações do capital energético e a burocracia de defesa, os neocom, cujos interesses materiais exigiam a reorientação da política externa estadunidense para a Ásia Central e o Oriente Médio.
Nesse contexto, a CIA assume um protagonismo peculiar que antecede em décadas o ataque. A documentação histórica analisada por Mahmood Mamdani em Good Muslim, Bad Muslim e por Steve Coll em Ghost Wars revela que a agência de Langley não apenas financiou, armou e treinou os mujahideen afegãos na década de 1980, contando inclusive com a formação dos quadros da Al-Qaeda, mas manteve relações operacionais ambíguas com redes islamistas mesmo após o colapso soviético.
A “Operação Ciclone” representa o maior programa de operação encoberta da história da CIA, criando uma infraestrutura transnacional de recrutamento, financiamento (via Banco de Crédito e Comércio Internacional, o BCCI) e doutrinação que escapou ao controle estatal e se voltou contra seu criador. O 11 de Setembro é, portanto, o “retorno do recalcitrante” imperial, ou seja, instrumentalização do fundamentalismo islâmico como arma geopolítica contra o nacionalismo secular árabe e o comunismo soviético.
Slavoj Žižek, em Bem-vindo ao Deserto do Real, captura essa ironia trágica ao afirmar que os EUA foram atingidos pelo “objeto excedente” de sua própria fantasia ideológica, aquele terrorista fundamentalista que, como Freddy Krueger, retorna do passado para assombrar o império que o criou.
O Pentágono, por sua vez, emerge como o principal beneficiário institucional do acontecimento. Andrew Bacevich, em The New American Militarism, demonstra que a cultura estratégica norte-americana desde a Guerra do Vietnã foi progressivamente dominada por uma “síndrome do poderio aéreo” e pela crença na eficácia da força militar como instrumento resolutivo de contradições políticas que se radicalizou após a Guerra do Golfo de 1991.
Os atentados forneceram a legitimação ideológica para a implementação do programa que o influente think tank Project for the New American Century (PNAC) vinha defendendo desde 1997: a necessidade de um “novo Pearl Harbor” para justificar o aumento massivo do orçamento de defesa e a política de “domínio de espectro completo” sobre a Eurásia. A ação do Pentágono no próprio dia dos ataques com a não interceptação dos voos sequestrados apesar dos protocolos estabelecidos pelo NORAD, o exercício militar “Vigilant Guardian” que simulava cenários idênticos de sequestro e a destruição preventiva de evidências contábeis no anel B do prédio atingido, onde se encontravam os registros dos US$ 2,3 trilhões não auditáveis do Departamento de Defesa, constitui objeto de investigação que a Comissão do 11 de Setembro reconheceu como “inexplicavelmente incompetente”, mas que a análise sociológica de autores como David Ray Griffin em The New Pearl Harbor reinterpreta como indício de cumplicidade operacional.A inovação mais significativa nas teses recentes reside na articulação entre o papel da CIA/Pentágono e as contradições internas do capitalismo neoliberal. David Harvey, em O Novo Imperialismo, argumenta que a virada para o século XXI foi marcada por uma crise de sobreacumulação que exigia não apenas a abertura de novos mercados, mas a imposição coercitiva da ordem financeira global, uma tarefa que demandava a remilitarização da política externa.
O 11 de Setembro funcionou como o “evento-ruptura” que permitiu a passagem da hegemonia baseada no consenso para a dominação baseada na coerção. A CIA e o Pentágono, longe de serem meros instrumentos passivos, operaram como frações orgânicas do bloco de poder que impulsionou essa transição.
Peter Dale Scott acrescenta que as conexões entre a inteligência estadunidense, o financiamento via Arábia Saudita e o tráfico de ópio do Afeganistão (documentado em The Road to 9/11) revelam que a “Guerra ao Terror” também serviu para preservar circuitos financeiros ilícitos que sustentam frações parasitárias do capital transnacional, protegidas pelo sigilo bancário e pela cumplicidade das agências de segurança.
Por fim, exige-se situar o papel da CIA e do Pentágono no quadro da crise orgânica do Estado capitalista. Sheldon Wolin, em Democracy Incorporated, caracteriza o pós-11 de Setembro como a instauração de um “totalitarismo invertido”, no qual o poder real migra das instituições representativas para uma constelação de agências secretas, corporações de defesa e think tanks ideológicos, ou “Estado profundo”.
A “Guerra ao Terror” não foi uma resposta a uma ameaça externa, mas a materialização de um projeto de poder que necessitava de um inimigo permanente para justificar a expansão infinita do aparato repressivo e a extração de mais-valia via contratos militares. Corey Robin, em The Reactionary Mind, complementa essa análise ao demonstrar que o medo como tecnologia de governança não é uma aberração, mas a essência do pensamento reacionário que domina o establishment de segurança nacional. O 11 de Setembro, portanto, não foi um fracasso da CIA e do Pentágono, mas o sucesso macabro de sua reprodução institucional consubstanciada na criação do inimigo que justifica eternamente sua própria existência.
Referências Bibliográficas
BACEVICH, Andrew J. The New American Militarism: How Americans Are Seduced by War. Oxford: Oxford University Press, 2005.
COLL, Steve. Ghost Wars: The Secret History of the CIA, Afghanistan, and Bin Laden, from the Soviet Invasion to September 10, 2001. New York: Penguin Press, 2004.
GRIFFIN, David Ray. The New Pearl Harbor: Disturbing Questions about the Bush Administration and 9/11. Northampton: Olive Branch Press, 2004.
HARVEY, David. O Novo Imperialismo. Tradução de Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
MAMDANI, Mahmood. Good Muslim, Bad Muslim: America, the Cold War, and the Roots of Terror. New York: Pantheon Books, 2004.
ROBIN, Corey. The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Sarah Palin. Oxford: Oxford University Press, 2011.
SCOTT, Peter Dale. The Road to 9/11: Wealth, Empire, and the Future of America. Berkeley: University of California Press, 2007.
WOLIN, Sheldon S. Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism. Princeton: Princeton University Press, 2008.
ŽIŽEK, Slavoj. Bem-vindo ao Deserto do Real: Cinco Ensaios sobre o 11 de Setembro e Datas Relacionadas. Tradução de Paulo Cesar Castanheira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

