sábado, 15 de agosto de 2026

SERTANEJO UNIVERSITÁRIO, FUNK, FORRÓ ELETRÔNICO: a crise da canção na festa do capital em que o Brasil dança à beira do abismo

 

Dou prosseguimento a uma produção de textos culturais acerca do pensamento comum, da alienação no Brasil, agora em relação ao universo musical dos dias atuais. Muitos podem não gostar, mas a música popular brasileira vive, hoje, uma crise que não é apenas estética, representa simbolicamente um apagão civilizatório. O que se ouve nas rádios, nos palcos improvisados das prefeituras do interior e nos celulares de milhões não é um “gosto do povo” espontâneo, mas o resultado de décadas de desmonte educacional, concentração midiática e captura da cultura pela lógica do lucro imediato, o substrato de um projeto político.

 Como já advertia Wisnik (1999), a canção brasileira foi, ao longo do século XX, um dos poucos espaços onde o país pensava a si mesmo em linguagem sensível. Entretanto, não por acaso, esse espaço está sendo demolido.

O sertanejo universitário e as bandas de forró eletrônico não são fenômenos musicais espontâneos das massas populares, tiveram antes de mais nada sua assunção como braços culturais do agronegócio e do capital especulativo do interior. Marilena Chaui (2000), mostrou como as elites brasileiras sempre operaram por imposição simbólica disfarçada de “espontaneidade popular”.

A sofrência real e material/espiritual, composta em Luiz Gonzaga ou Jackson do Pandeiro era narração coletiva da dor, foi desfigurada, pois agora vira jingle de cerveja e trilha de ostentação pecuária do chamado “agro pop”.

O forró de raiz, comunitário, de roda, de chão batido, foi substituído por palcos de LED e vocalistas medíocres de aluguel.

A forma permanece; o conteúdo foi expropriado.

O funk, nascido nas periferias como grito dos excluídos e marginalizados das favelas, vive a contradição que Francisco de Oliveira descreveu (1972): a cultura dos de baixo é absorvida, digerida e devolvida como produto dos de cima.

E então surgem os fenômenos puramente algorítmicos, tais como “Caneta Azul”, de Manoel Gomes, “Vou descer pra BC” (Brenno & Matheus com DJ Ari SL)... Podemos caracterizar que não são música, não são canções, não são sequer linguagem, mas sim situações logaritmizadas específicas. Ou seja, convertem-se em eventos de engajamento, fabricados pela lógica do scroll infinito arquetipado nas (das) redes sociais.

Tatit (1996), demonstrou que a canção brasileira se sustentava na tensão entre melodia e fala, entre corpo e sentido. Nos dias atuais não há tensão, apenas o ruído que prende o polegar por três segundos. Temos em mãos o algoritmo que é o novo curador, e ele não tem ouvidos: tem métricas e repetições até o esgotamento para, enfim, criar outro algoritmo e assim sucessivamente.


O CAPÍTULO MAIS PERVERSO DESSA ENGRENAGEM ACONTECE NAS pequenas prefeituras

Pequenas cidades dos interiores do Brasil, com IDH abaixo de 0,6, sem saneamento, sem médico, contratam shows de dois, três, quatro milhões de reais. O que se vê não são eventos culturais, não é cultura. Sem meias palavras, trata-se de “rachadinha” institucionalizada, na qual o cachê inflado volta em porcentagem ao gestor, ao vereador, ao intermediário (“empresário”). Os corruptos enchem seus bolsos, enquanto o povo recebe, em troca do direito à saúde, uma noite de euforia etílica. Duplas sertanejas e/ou individuais enriquecem neste contexto. Estamos diante do “sertanejo” de playboys que não sabem a diferença entre um boi e uma vaca, mas quer pagar de peão ostentatório ora convertido em “agroboy”.

Paulo Arantes (2014), chama isso de “gestão do desastre”: o capitalismo periférico não desenvolve, administra a catástrofe com verniz festivo. Eis o locus panis et circencis, em que o artista, nesse circuito, é simultaneamente produto acabado e álibi de ilicitudes. O efeito dialético desta engrenagem é que a população se torna plateia de sua própria espoliação.

A indústria do entretenimento opera aqui o que Adorno e Horkheimer teorizaram na “Dialética do Esclarecimento” (1947), mas aferida com a brutalidade tropical que Florestan Fernandes (1964): não há mediação, não há sutileza, a mercadoria cultural é imposta de cima para baixo com a violência de quem nunca precisou convencer.

O retrocesso não é acidental. É funcional

Um povo que não lê, não escuta com atenção, não contempla, é um povo mais fácil de governar por decreto, por meme, por emenda parlamentar (“secreta”).

A alienação, como Marx escreveu nos “Manuscritos de 1844”, começa quando o ser humano não reconhece mais sua própria força criativa no que produz e sua separação da natureza, de seu corpo, de sua mente. Com efeito, o brasileiro hoje consome música que não fez, de artistas que não escolheu, em festas que não pagou mas que financiou com seu imposto.

Como complemento desta funcionalidade sistêmica, as redes sociais e o excesso de telas completam o circuito da alienação que, ressalve-se, não é consciente. Eis que Laymert Garcia dos Santos (2003), já alertava que a tecnologia, sob o capitalismo, não liberta, mas está voltada para reorganizar um outro tipo de servidão.

O jovem que passa o dia diante do TikTok não está “se divertindo”, mas treinado para a fragmentação, para o descarte, para a incapacidade de sustentar um pensamento por mais de dez segundos. A indústria alimenta a política do descartável da seguinte forma: o hit que dura uma semana, o artista que surge e some, o prefeito que inaugura e é esquecido. Tudo é precarizado, o trabalho, a arte, a cultura, a vida, eis a forma cultural a qual hoje estamos submetidos por força e lógica do capital.


MOTO PERPÉTUO DO efêmero PORQUE TUDO PRECISA ser recomprado, CONSUMIDO AD INFINITUM

Byung-Chul Han (2015), descreve o sujeito que se autoexplora até o colapso. No Brasil, esse sujeito dança até as três da manhã num show pago com dinheiro público, volta para a obra às cinco, e no intervalo rola o feed de suas “selfies”. Não há descanso, apenas a pausa entre dois estímulos.

A cultura digital não criou a indústria cultural, mas levou sua lógica a um nível quase microscópico: agora cada indivíduo carrega no bolso uma máquina permanente de produção e consumo de imagens. A música precisa disputar segundos de atenção com vídeos, publicidade, mensagens, memes e notificações.

Uma pesquisa divulgada em agosto de 2026 pelo Instituto Alana encontrou que 50% dos adolescentes brasileiros entrevistados passam mais tempo on-line do que gostariam; quase 80% ficam mais de três horas por dia conectados, e 15% ultrapassam oito horas.

A consequência cultural é a valorização da novidade sobre a permanência, do impacto sobre a elaboração e do viral sobre a memória. Adorno e Horkheimer (1985) já haviam percebido como a indústria cultural tende a padronizar a experiência; Guy Debord mostrou em A sociedade do espetáculo como a vida social pode ser convertida em representação. Hoje, o algoritmo radicaliza ambas as tendências: não precisamos mais esperar o próximo disco, programa de rádio ou novela; a próxima mercadoria cultural chega à tela em segundos.

“A periferia brasileira (…) é o bagaço resultado do desenvolvimento econômico cruamente desigual e que relegou uma parcela significativa da população a viver à margem da civilização urbana. Inexistência de saneamento básico, falta de escolas ou escolas muito ruins, (...) a crescente violência como resultado de tudo isso, é o saldo de um país que mal se desenvolveu ou se desenvolveu muito mal” (Jornal GGN, 2014) em termos culturais e políticos.

E, no entanto, a dialética não permite o fim da história no refrão mais raso.

TEMPOS, ESCOLAS, SILÊNCIOS, COMUNIDADES: HÁ MUITA GENTE BOA ESCONDIDA PELO MAINSTREAM CORPORATIVO

Há resistência no samba de roda que insiste no Recôncavo, no slam que nasce na periferia de São Paulo, no maracatu que ainda pisa o chão de Olinda, na professora que coloca Cartola, Chico Buarque para os alunos ouvirem inteiros, sem pular faixa.

Darcy Ribeiro (1995), apostou que a criatividade popular seria sempre maior que a capacidade de domesticação das elites. Mas essa criatividade precisa de condições materiais — escola, tempo, silêncio, comunidade — para florescer.

A verdadeira crise, portanto, não é simplesmente a suposta “decadência do gosto popular”. É a transformação da cultura em fluxo permanente de mercadorias descartáveis, num sistema que reduz o tempo necessário para ouvir, compreender, comparar, amadurecer e lembrar, justamente as condições socioculturais de que uma cultura viva necessita para florescer enquanto civilização próspera e atuante.

Enquanto a política for espetáculo e a música for métrica de engajamento, o Brasil seguirá dançando, refém de um tempo sem tempo. Dançando muito. Pensando pouco. E pagando, sempre, a conta da festa que não escolheu.


Bibliografia de referência                            

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.

CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na ordem social competitiva. São Paulo: Dominus/Edusp, 1964.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Trad. Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.

Jornal GGN. https://jornalggn.com.br/musica/a-cultura-da-miseria-e-a-miseria-da-cultura/ 29/01/2014. Acesso em 15 de agosto/2026.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SANTOS, Laymert Garcia dos. Politizar as novas tecnologias: o impacto sociotécnico da informação digital e genética. São Paulo: Editora 34, 2003.

TATIT, Luiz. O cancionista: composição de canções no Brasil. São Paulo: Edusp, 1996.

WISNIK, José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.