Compreender o futebol contemporâneo exige, antes de tudo, reconhecer
que ele não escapou às transformações estruturais do capitalismo
em sua fase neoliberal mais aguda, marcada por intensas disputas
comerciais e sangrentas guerras. Desde os anos de 1980, com a
ofensiva conservadora Thatcher/Reagan, o esporte mais popular do
planeta foi progressivamente submetido à lógica da valorização do
capital, suplantando a expressão cultural e lazer das classes
trabalhadoras para converter-se em ramo lucrativo da indústria do
entretenimento (Verdum, 2023). O neoliberalismo no futebol não se
resume a uma mera “modernização administrativa” do pós
“fifagate”, mas corresponde à captura integral da modalidade
pelo chamado “mercado”, na qual o jogador vira ativo, o torcedor
vira consumidor e o jogo, um derivativo financeiro (Sader, 2006).
DESVINCULAÇÃO DE AFETIVIDADES E A ALIENAÇÃO DO SER
O processo de
financeirização dos clubes é talvez o sintoma mais evidente dessa
dinâmica. Fundos de investimento, bilionários estrangeiros e fundos
soberanos de nações petroleiras passaram a adquirir agremiações
esportivas não por paixão, mas pela expectativa de rentabilidade,
tratando o futebol como qualquer outro ativo em carteira (Ferreira,
2018).
Com base nisso, é
impossível analisar o futebol contemporâneo sem desnudar a sua
aparente neutralidade esportiva para revelar a sua essência: a de
uma poderosa mercadoria inserida na engrenagem de agregar valor do
capital. O que assistimos hoje é o ápice de um processo histórico
de financeirização, onde o jogo deixou de ser um rito de lazer e
identidade da classe trabalhadora para se tornar um derivativo
financeiro-especulativo global. O futebol neoliberal opera como um
gigantesco aparato ideológico que naturaliza a lógica do mercado,
transformando afeto, cultura e o próprio corpo dos atletas em
capital. Corpos estes alienados de sua origem, agora milionários
pelo sistema de engrenagens destacadamente corrupto.
No Brasil, a adoção
do modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) aprofundou essa
tendência, transferindo o controle dos clubes, historicamente
vinculados a suas comunidades, para grupos econômicos cujo horizonte
é exclusivamente o lucro (Barbosa et ali. 2017). Trata-se, nos
termos do que afirmara David Harvey (2008): uma forma de acumulação
por espoliação, em que patrimônio cultural coletivo é privatizado
e convertido em fonte de extração de mais-valia.
Nesse contexto, a
relação afetiva e identitária do trabalhador com seu clube vem
sendo sistematicamente desmanchada em razão do crescente processo de
globalização do futebol, tal qual o capital financeiro
especulativo. Os estádios, antes espaços populares de catarse
coletiva, tornaram-se arenas de consumo elitizadas, gentrificadas,
com ingressos a preços incompatíveis com a realidade da classe
trabalhadora, o que configura, na leitura de autores como Giulianotti
(1999), uma verdadeira “higienização” das arquibancadas. O
torcedor é interpelado não mais como membro de uma comunidade
afetiva, mas como cliente de um produto midiático, submetido à
lógica do pay-per-view e das transmissões exclusivas que
mercantilizam até o gesto mais simples de assistir a uma partida
(Nascimento, 2024). O capital engole a paixão como fetichismo e
alienação. Ao capitalista não importam as relações afetivas
entre corpos, assim como com o clubes de futebol antes próximos ao
torcedor.
FETICHISMO E
MERCADORIA, A INDÚSTRIA DO LUCROOs atletas se tornam
força de trabalho alienada, cujo suor e talento são expropriados
por uma cadeia de intermediários financeiros, fundos de investimento
e detentores de direitos de transmissão. Jogadores foram convertidos
em
commodities dos países semicoloniais para o Norte
“desenvolvido”. A essência lúdica do esporte, aquilo que ele
produzia de valor de uso coletivo vertido ao pertencimento, ao
encontro, à identidade de classe, foi sumamente subsumida pelo valor
de troca. Cada drible, cada gol, cada vibração apaixonada, a
lágrima de uma torcida virou conteúdo precificado, embalado e
vendido como experiência pronta para o consumo.
Neste quadro,
megaeventos esportivos, as Copas do Mundo e Olimpíadas, funcionam
como laboratórios privilegiados dessa lógica. Sob o pretexto do
“legado”, cidades inteiras são remodeladas para atender aos
interesses do capital imobiliário e das grandes corporações
patrocinadoras (Uber, CocaCola, Nike, Bets, Adidas, Visa, Bank of
America...), com remoções forçadas de populações periféricas e
endividamento público milionário. O futebol, nesse cenário, serve
de cortina de fumaça ideológica para operações de reestruturação
urbana excludente, consolidando aquilo que a literatura crítica tem
chamado de “urbanismo de negócios” que destrói cidades como
local interessante de viver-se.
Por esta trilha, a
ampliação para 48 seleções não obedece a nenhum ideal esportivo,
mas à necessidade imperiosa de expandir mercados, multiplicar
partidas-televisão e inflar contratos de patrocínio, o mesmo nódulo
tendencial que Marx e Engels (1848) identificaram na burguesia,
compelida a “aninhar-se em toda parte, estabelecer-se em toda
parte, criar vínculos em toda parte”. Enquanto arenas reluzentes
são erguidas, o espetáculo dissimula o trabalho precarizado de
operários da construção civil, a gentrificação de bairros
populares e os cofres públicos saqueados em nome das isenções
fiscais exigidas pela entidade.
COPAS DO MUNDO COMO
LABORATÓRIOS LÓGICOS DA ACUMULAÇÃO DE CAPITAIS
A Copa do Mundo de
2026, sediada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, é
o laboratório definitivo dessa lógica. A inédita expansão do
torneio para 48 seleções não obedece a um critério puramente
técnico ou romântico do esporte, mas a uma fria estratégia de
abertura de novos mercados e maximização de receitas de
transmissão. As projeções da própria FIFA indicam que o ciclo
financeiro de 2023 a 2026 ultrapassará a marca astronômica de 11
bilhões de dólares em receitas. O torneio foi desenhado
exclusivamente para maximizar o lucro das grandes corporações
multinacionais patrocinadoras, utilizando estádios de futebol
americano adaptados para comportar o maior número possível de
consumidores pagantes.
A mercantilização
do evento também aprofunda a exploração do trabalho e a alienação.
A engrenagem que sustenta o espetáculo da Copa de 2026 depende de
uma cadeia global de trabalho precarizado, desde a adaptação das
arenas até a indústria do entretenimento paralela. O “espírito
de união” propalado pelas transmissões ufanistas atua como uma
cortina de fumaça que oculta as profundas desigualdades do
capitalismo tardio. A Rússia, por exemplo, foi banida do esporte
pela FIFA, países africanos são discriminados nos EUA, iranianos
hostilizados. O talento dos jogadores do Sul Global é extraído e
valorizado nos mercados do Norte, reproduzindo em campo as
assimetrias do imperialismo econômico.

Contudo, a dialética
marxista nos ensina que não há sistema de dominação que não
produza suas próprias contradições. A elitização extrema e a
descaracterização comunitária (alienação) do futebol geram um
crescente mal-estar e movimentos de resistência de torcedores que
recusam a condição de meros clientes. Compreender os números e a
estrutura da Copa de 2026 não é apenas um exercício acadêmico,
mas um ato político urgente. É preciso desmistificar a narrativa da
“indústria do entretenimento” para resgatar o futebol como um
direito social, um bem comum e uma expressão inalienável da cultura
popular.
Pensar o futebol a
partir de uma perspectiva marxista é, portanto, recusar a
naturalização dessa mercantilização, em bilionários comandam o
mundo futebolístico, e afirmar que o jogo, enquanto expressão da
cultura popular, pode e deve ser resgatado das garras do capital.
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