sexta-feira, 12 de junho de 2026

COPA DO MUNDO 2026 - Neoliberalismo e futebol: quando a mercadoria engole o jogo e a cultura como elemento de mais-valia


Compreender o futebol contemporâneo exige, antes de tudo, reconhecer que ele não escapou às transformações estruturais do capitalismo em sua fase neoliberal mais aguda, marcada por intensas disputas comerciais e sangrentas guerras. Desde os anos de 1980, com a ofensiva conservadora Thatcher/Reagan, o esporte mais popular do planeta foi progressivamente submetido à lógica da valorização do capital, suplantando a expressão cultural e lazer das classes trabalhadoras para converter-se em ramo lucrativo da indústria do entretenimento (Verdum, 2023). O neoliberalismo no futebol não se resume a uma mera “modernização administrativa” do pós “fifagate”, mas corresponde à captura integral da modalidade pelo chamado “mercado”, na qual o jogador vira ativo, o torcedor vira consumidor e o jogo, um derivativo financeiro (Sader, 2006).

DESVINCULAÇÃO DE AFETIVIDADES E A ALIENAÇÃO DO SER

O processo de financeirização dos clubes é talvez o sintoma mais evidente dessa dinâmica. Fundos de investimento, bilionários estrangeiros e fundos soberanos de nações petroleiras passaram a adquirir agremiações esportivas não por paixão, mas pela expectativa de rentabilidade, tratando o futebol como qualquer outro ativo em carteira (Ferreira, 2018).


Com base nisso, é impossível analisar o futebol contemporâneo sem desnudar a sua aparente neutralidade esportiva para revelar a sua essência: a de uma poderosa mercadoria inserida na engrenagem de agregar valor do capital. O que assistimos hoje é o ápice de um processo histórico de financeirização, onde o jogo deixou de ser um rito de lazer e identidade da classe trabalhadora para se tornar um derivativo financeiro-especulativo global. O futebol neoliberal opera como um gigantesco aparato ideológico que naturaliza a lógica do mercado, transformando afeto, cultura e o próprio corpo dos atletas em capital. Corpos estes alienados de sua origem, agora milionários pelo sistema de engrenagens destacadamente corrupto.

No Brasil, a adoção do modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) aprofundou essa tendência, transferindo o controle dos clubes, historicamente vinculados a suas comunidades, para grupos econômicos cujo horizonte é exclusivamente o lucro (Barbosa et ali. 2017). Trata-se, nos termos do que afirmara David Harvey (2008): uma forma de acumulação por espoliação, em que patrimônio cultural coletivo é privatizado e convertido em fonte de extração de mais-valia.

Nesse contexto, a relação afetiva e identitária do trabalhador com seu clube vem sendo sistematicamente desmanchada em razão do crescente processo de globalização do futebol, tal qual o capital financeiro especulativo. Os estádios, antes espaços populares de catarse coletiva, tornaram-se arenas de consumo elitizadas, gentrificadas, com ingressos a preços incompatíveis com a realidade da classe trabalhadora, o que configura, na leitura de autores como Giulianotti (1999), uma verdadeira “higienização” das arquibancadas. O torcedor é interpelado não mais como membro de uma comunidade afetiva, mas como cliente de um produto midiático, submetido à lógica do pay-per-view e das transmissões exclusivas que mercantilizam até o gesto mais simples de assistir a uma partida (Nascimento, 2024). O capital engole a paixão como fetichismo e alienação. Ao capitalista não importam as relações afetivas entre corpos, assim como com o clubes de futebol antes próximos ao torcedor.

FETICHISMO E MERCADORIA, A INDÚSTRIA DO LUCRO

Os atletas se tornam força de trabalho alienada, cujo suor e talento são expropriados por uma cadeia de intermediários financeiros, fundos de investimento e detentores de direitos de transmissão. Jogadores foram convertidos em commodities dos países semicoloniais para o Norte “desenvolvido”. A essência lúdica do esporte, aquilo que ele produzia de valor de uso coletivo vertido ao pertencimento, ao encontro, à identidade de classe, foi sumamente subsumida pelo valor de troca. Cada drible, cada gol, cada vibração apaixonada, a lágrima de uma torcida virou conteúdo precificado, embalado e vendido como experiência pronta para o consumo.

Neste quadro, megaeventos esportivos, as Copas do Mundo e Olimpíadas, funcionam como laboratórios privilegiados dessa lógica. Sob o pretexto do “legado”, cidades inteiras são remodeladas para atender aos interesses do capital imobiliário e das grandes corporações patrocinadoras (Uber, CocaCola, Nike, Bets, Adidas, Visa, Bank of America...), com remoções forçadas de populações periféricas e endividamento público milionário. O futebol, nesse cenário, serve de cortina de fumaça ideológica para operações de reestruturação urbana excludente, consolidando aquilo que a literatura crítica tem chamado de “urbanismo de negócios” que destrói cidades como local interessante de viver-se.

Por esta trilha, a ampliação para 48 seleções não obedece a nenhum ideal esportivo, mas à necessidade imperiosa de expandir mercados, multiplicar partidas-televisão e inflar contratos de patrocínio, o mesmo nódulo tendencial que Marx e Engels (1848) identificaram na burguesia, compelida a “aninhar-se em toda parte, estabelecer-se em toda parte, criar vínculos em toda parte”. Enquanto arenas reluzentes são erguidas, o espetáculo dissimula o trabalho precarizado de operários da construção civil, a gentrificação de bairros populares e os cofres públicos saqueados em nome das isenções fiscais exigidas pela entidade.

COPAS DO MUNDO COMO LABORATÓRIOS LÓGICOS DA ACUMULAÇÃO DE CAPITAIS

A Copa do Mundo de 2026, sediada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, é o laboratório definitivo dessa lógica. A inédita expansão do torneio para 48 seleções não obedece a um critério puramente técnico ou romântico do esporte, mas a uma fria estratégia de abertura de novos mercados e maximização de receitas de transmissão. As projeções da própria FIFA indicam que o ciclo financeiro de 2023 a 2026 ultrapassará a marca astronômica de 11 bilhões de dólares em receitas. O torneio foi desenhado exclusivamente para maximizar o lucro das grandes corporações multinacionais patrocinadoras, utilizando estádios de futebol americano adaptados para comportar o maior número possível de consumidores pagantes.

A mercantilização do evento também aprofunda a exploração do trabalho e a alienação. A engrenagem que sustenta o espetáculo da Copa de 2026 depende de uma cadeia global de trabalho precarizado, desde a adaptação das arenas até a indústria do entretenimento paralela. O “espírito de união” propalado pelas transmissões ufanistas atua como uma cortina de fumaça que oculta as profundas desigualdades do capitalismo tardio. A Rússia, por exemplo, foi banida do esporte pela FIFA, países africanos são discriminados nos EUA, iranianos hostilizados. O talento dos jogadores do Sul Global é extraído e valorizado nos mercados do Norte, reproduzindo em campo as assimetrias do imperialismo econômico.

Contudo, a dialética marxista nos ensina que não há sistema de dominação que não produza suas próprias contradições. A elitização extrema e a descaracterização comunitária (alienação) do futebol geram um crescente mal-estar e movimentos de resistência de torcedores que recusam a condição de meros clientes. Compreender os números e a estrutura da Copa de 2026 não é apenas um exercício acadêmico, mas um ato político urgente. É preciso desmistificar a narrativa da “indústria do entretenimento” para resgatar o futebol como um direito social, um bem comum e uma expressão inalienável da cultura popular.

Pensar o futebol a partir de uma perspectiva marxista é, portanto, recusar a naturalização dessa mercantilização, em bilionários comandam o mundo futebolístico, e afirmar que o jogo, enquanto expressão da cultura popular, pode e deve ser resgatado das garras do capital.


Referências bibliográficas                                                    

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