O fenômeno chamado “Teoria do Domínio” (dominionismo) nas
igrejas neopentecostais brasileiras reúne ideias políticas e
religiosas com influência internacional. Surge nos anos 1970 a
partir de doutrinas estadunidenses (Reconstrucionismo Cristão,
Teologia da Prosperidade, “7 montes”), projetos defendem que
cristãos devem assumir o controle das principais esferas sociais
(família, educação, mídia, negócios, esportes, governo e até
mesmo o crime organizado etc.) para “tomar o poder”. No Brasil,
donos de grandes igrejas neopentecostais abraçaram ou expressaram
essa visão, criando redes políticas e midiáticas poderosas. Esta
estratégia adquire tons claramente político e simbólico, visando
consolidar valores evangélicos no Estado, estimular mobilização de
massas fiéis, garantir benefícios econômicos às instituições
religiosas.
ORIGENS HISTÓRICAS E INFLUÊNCIAS EXTERNAS
Desde as primeiras
denominações pentecostais brasileiras, houve laços teológicos com
matrizes estrangeiras, mas foi só a partir de 1970 que despontou um
neopentecostalismo duramente influenciado pelos EUA, arquitetado pelo
departamento de Estado e pela CIA para o controle de corpos e
impositora de ideologia conservadora/reacionária.
Nesse período
proliferaram no Brasil novas doutrinas vindas da América do Norte,
notadamente a teologia da prosperidade, a batalha espiritual e a
teologia do domínio. A Teologia do Domínio (ou dominionismo)
remonta ao protestantismo reconstrucionista: Deus “...os abençoou,
dizendo: Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra
e a dominem. E tenham poder sobre os peixes do mar, sobre as aves que
voam no ar e sobre os animais que se arrastam pelo chão (Gênesis
1:28) conferindo-lhes mandato para “dominarmos” o mundo.
Na década de 1970,
líderes norte-americanos como Loren Cunningham (JOCUM) e Bill Bright
criaram a chamada Doutrina dos Sete Montes, profetizando que crentes
eleitos invadiriam sete “montanhas” da sociedade (família,
governo, mídia etc.). Essa ideia teológico-política cruzou
fronteiras, tal como observa Pereira (2023), “oriundas dos EUA,
como a Prosperidade, a Batalha Espiritual e o Domínio” tornaram-se
parte do ethos de igrejas neopentecostais brasileiras.
Pesquisadores
lembram que “a Dominion Theology… foi rapidamente proliferada nos
segmentos evangélicos brasileiros” (Mariano 2003). Ou seja, o
“plano de domínio” foi importado e adaptado ao contexto de
rápida expansão evangélica no Brasil, desde os estertores da
década de 60 do século passado, onde igrejas de terceira onda
(Universal, Mundial, Renascer, Lagoinha etc.) tomaram essas doutrinas
como aliadas da conquista de espaço social e político como aportes
anticomunistas da ditadura civil-militar pós-1964.

A Teologia do
Domínio conviveu com outras influências. A Teologia da
Prosperidade, por exemplo, reforça a ideia de que fiéis devem
crescer materialmente como prova de bênção divina. Esse apelo à
riqueza e dádivas ajuda a financiar as instituições e a legitimar
qualquer apoio político que favoreça esse projeto. Por outro lado,
correntes mais recentes como a “Nova Reforma Apostólica” e o
discurso conservador internacional (aliança com partidos de direita
e fundamentalistas cristãos dos EUA) deram organicidade ao domínio.
O dominionismo foi
adotado em igrejas como a da Lagoinha (MG) e disseminado por figuras
ligadas a campanhas conservadoras (movimentos contra “kit gay” ou
“Escola sem Partido”). Em suma, há raízes pentecostais
nacionais mas também “matriz reformada norte-americana” atuando
em paralelo. Essa mescla explica por que, segundo críticos, estamos
vendo no Brasil um esforço de “conquistar espaços para o Reino de
Deus” nas instituições seculares, extensão das ações dos anos
1970 no exterior.
Propósitos políticos, econômicos e simbólicos
A Teologia do
Domínio não é um tema religioso abstrato, mas sim um projeto de
poder. Eliseu Pereira (2023) define-a como “uma designação
difusa para encampar um projeto de poder […] visando controlar as
principais esferas estratégicas da sociedade”. Os objetivos
claros são políticos (mudar leis, pautar o Congresso), econômicos
(garantir isenções fiscais a igrejas, via de mídia e
dízimos milionários) e simbólicos/culturais
(reforçar valores cristãos “tradicionais” como fundamento da
nação), e o combate das influências dos partidos e
organizações de esquerda na população explorada.
Em sermões e
livros, líderes proclamam que Deus seria um “estadista” com
plano nacional, a exemplo de como o “empresário da fé” Edir
Macedo declarou em Plano de Poder (2008/2011), onde descreve Deus
ensinando “planejamento, organização” no Gênesis e revelando
sua “intenção estadista” de formar uma grande nação. Isso
vale como inspiração para que os próprios fiéis busquem cargos
públicos ou exerçam influência, sob a crença de estarem cumprindo
um mandato divino. Michelle Bolsonaro, por exemplo, usou essa
retórica medievalista ao exortar “tirar o diabo do poder” (a
centro esquerda lulista), enunciando que o presidente deve ser o
“ungido” para libertar a nação, um discurso típico da Teologia
do Domínio.
Avaliando em termos
simbólicos, o projeto serve para reconstruir uma identidade cristã
nacional. Defende-se que ao deixar espaços “não cristãos”, a
sociedade decairia, e que os cristãos são escolhidos para ocupar o
poder. Essa visão justifica estratégias de “guerra cultural”
valendo-se de campanhas midiáticas contra o ensino laico e programas
escolares (Escola sem Partido), criminalização do aborto, censura
artística ou mesmo a defesa de uma “ideologia judaico-cristã”
odiosa contra inimigos políticos.
A vitória de Jair
Bolsonaro foi interpretada por muitos líderes neopentecostais como
cumprimento profético, reforçando a crença de que unir política e
fé traz prosperidade e autoridade. No plano material, a Teoria do
Domínio sustenta a mobilização de dízimos e doações para
financiar templos, emissoras de TV e eventos de massa (marchas,
“avivamentos”), que por sua vez lucram e ampliam o alcance, além
de impor um severo controle de corpos e mentes. Assim, existe um
reforço recíproco: poder estatal para implantar agendas e
benefícios e poder econômico para dar solidez às hierarquias
religiosas e suas conveniências materiais, ou seja, dinheiro mais
dinheiro, lucro com a fé.
EXEMPLOS CONCRETOS NA PRÁTICA INSTITUCIONAL
Múltiplas
organizações ilustram esses métodos. De um lado, grandes igrejas
neopentecostais que assumiram papel político evidente. Edir Macedo
prega abertamente que “Deus é estatista” e orienta seus fiéis a
votarem em candidatos simpáticos. Pastores como Silas Malafaia e
Valdemiro têm assessorias políticas ativas e buscam espaço em
parlamentos e em organismos da sociedade civil.
Em campanhas
eleitorais e nas ruas, espalham narrativas de “batalha espiritual”
e fakenews contra adversários (acusando-os de pactos
demoníacos, mamadeira de piroca...). Aparece agregada neste
contexto, a milionária Igreja Internacional da Graça de Deus,
fundada pelo pastor R.R. Soares. Ao mesmo tempo, todas mantêm uma
pesada máquina financeira em que boletins internos pedem dízimos
recordes para sustentar cada ministério ou canal de mídia, como
forma de garantir “fôlego” político à igreja, em unidade com
lideranças conservadoras e reacionárias como a aliança com a
família Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, além da bancada da
bíblia, da bala e do boi no Congresso Nacional (hoje fortalecida
pela bancada das bets).
UMA Perspectiva MATERIALISTA: classes, poder e acumulação
A ascensão dessas
ideias não é mero fenômeno espiritual, mas reflete contradições
de classe. O marxismo clássico entendeu a religião como expressão
da exploração, posto que nos tempos atuais, a Teoria do Domínio
funciona como ideologia da classe dominante evangélica. Observa-se
que grande parte dos novos convertidos são oriundos de camadas
empobrecidas (periferias, desempregados) que encontram na mensagem de
cura e prosperidade um alívio simbólico às suas carências.
Estudos apontam que crises econômicas (desemprego, queda de renda)
aumentam a procura por igrejas neopentecostais.
No Brasil, cada 1%
de perda de renda nos anos 1990 teria correspondido a 0,8% mais de
conversão de católicos ao neopentecostalismo. Este fenômeno social
demonstra a “alavancagem” de convicções religiosas em momentos
de miséria como já apontava Marx em seus escritos, a religião pode
atuar como “álibi” ou “conforto” para injustiças. Em
contrapartida, o discurso dos líderes frequentemente desvia o foco
das causas sistêmicas da pobreza, culpando imoralidades sociais ou
“inimigos demoníacos” (cultura secular, “marxismo cultural”)
em vez de questionar o próprio modelo econômico. Ao contrário,
“glorifica” nos púlpitos um
establishment de conteúdo
teocrático/capitalista!
Tal prática, ou
pragmatismo, não é acidental, pois reflete a adequação da
superestrutura religiosa às demandas do capitalismo tardio sob o
manto de um ultraneoliberalismo reacionário, ou “cristofascismo”
como ficou conhecido. A fé é commodificada a partir da qual a
igreja passa a operar com a racionalidade de uma empresa corporativa,
onde a salvação espiritual se entrelaça com a ascensão
socioeconômica individualista e a conquista de espaços de poder na
sociedade secular.
Nessa perspectiva
teórica, a base material dita a superestrutura. As igrejas
neopentecostais construíram uma base material colossal com suas
redes de televisão, bancos, imobiliárias e partidos políticos. A
retórica de “guerra espiritual” é, na prática, uma metáfora
direta para a competição de mercado e a disputa política. Quando
líderes religiosos exigem a ocupação de praças públicas, a
interferência em currículos escolares ou a censura de produções
culturais, não estão apenas praticando um ato religioso, mas
engajando-se em uma luta de classes. A elite religiosa alia-se às
frações dominantes da economia para manter o controle sobre o
proletariado, utilizando o sagrado como ferramenta para blindar seus
privilégios terrestres e neutralizar forças progressistas e
secularizantes.
PARCERIA PRIVADA COM O CRIME
ORGANIZADO COMO ODE AO CAPITALISMO
“Espalhem-se por
toda a terra e a dominem” até as organizações criminosas, entre
as quais as facções do tráfico e de milícias. Dito isto, os
últimos vinte anos, pesquisadores como Christina Vital da Cunha,
Patricia Birman e José Cláudio Souza Alves mostraram que
traficantes e milicianos passaram a incorporar símbolos evangélicos,
financiar templos, converter-se publicamente ou restringir práticas
religiosas de matriz africana em áreas sob seu domínio. Em alguns
casos, líderes do crime utilizam o discurso religioso para construir
legitimidade perante moradores, apresentar uma imagem de “homens
regenerados” ou justificar sua autoridade moral sobre a comunidade.
Em regiões
controladas por milícias e algumas facções, também foram
registrados episódios de perseguição a terreiros de umbanda e
candomblé, fechamento de espaços religiosos e imposição de
práticas inspiradas em interpretações fundamentalistas do
cristianismo. Pesquisadores denominam esse fenômeno de
“narcopentecostalismo” ou “traficantes de Jesus”, não para
afirmar que igrejas estejam envolvidas com o crime, mas para
descrever a apropriação da linguagem evangélica por bandidos que
continuam exercendo atividades criminosas.
Esse fenômeno pode
ser interpretado como uma forma de legitimação ideológica do poder
territorial. Assim como outras formas históricas de dominação
recorreram à religião para conferir autoridade ao poder político
ou militar, determinados grupos criminosos utilizam elementos
religiosos para fortalecer sua hegemonia local, produzir
consentimento e reduzir conflitos internos.
ACUMULAÇÃO
PRIMITIVA DO CAPITAL RELIGIOSO
A Teoria do Domínio
cristaliza alianças entre os donos dos templos (uma nova
lumpem-burguesia religiosa, donos de canais de rádio, jornais e tv)
e os mandantes do Estado. Nos anos 1970-80, crentes propagaram
livremente sua doutrina e venceram suporte no Legislativo uma vez
alcançada massa crítica, exatamente como havia previsto o ideólogo
Gary North (evangélico neoliberal). Primeiro, garantiu-se liberdade
religiosa; depois, ampliaram-se as bancadas evangélicas e
progrediram projetos de lei conservadores.
Em termos
econômicos, essas igrejas se comportam como corporações
capitalistas com fundações midiáticas e clientes
cativos (fiéis) que criam lucros permanentes. Podemos
chamar isso de acumulação primitiva do capital religioso, ou
seja, a extração contínua de valor (sob forma de dízimos,
bens ou apoio político, isenções milionárias de impostos)
para uma elite (pseudo)clerical. Ricardo Mariano
(1995) já apontava como a Teologia da Prosperidade sustentava essa
dinâmica, forjando uma “afinidade eletiva” entre fé e mercado
neoliberal. Essa fortuna religiosa serve depois para bancar
candidatos, campanhas de marketing político e até ações diretas
(como o patrocínio de passeatas, “marchas com jesus”).
Assim, criticamente,
a Teoria do Domínio revela-se um instrumento de hegemonia ideológica
que contribui para alienar as massas ao promover um dualismo “crentes
versus ímpios” e desmobilizar ações de classe (como greves) por
concepção religiosa. A democracia corre risco de virar “distopia
teonomista” se o Estado civil se subordinar a essa fé cega
organizada. O desafio agora é apontar as raízes sociais desse
fenômeno, entender como a “busca por significado” se alia ao
projeto de poder de setores médios e altos e resistir à
mistificação de que a salvação material vem apenas pela
intervenção divina no poder. Livros como Plano de Poder e Sete
Montes não são apenas literatura religiosa. Elas revelam a
existência de um projeto de poder. Reconhecer isso é condição
para articular uma oposição emancipatória capaz de retomar as
reivindicações legítimas do povo (saúde, emprego, educação) sem
ligá-las exclusivamente a um trono divino.
Referências
ALVES, José Cláudio
Souza. Dos Barões ao Extermínio: uma história da violência na
Baixada Fluminense.
BÍBLIA Sagrada.
Gênesis
Birman,
Patricia. Religião, violência e cidade.
Cardoso,
André; Miranda, Fábio. O crescimento pentecostal e os desafios para
o campo popular. Tricontinental Institute for Social Research. 2020
DiP,
Andrea; Levy, Clarissa; Terto, Ricardo. “Teologia do domínio é
mais perigosa para a democracia que bolsonarismo” (entrevista com
João Cezar de Castro Rocha). Agência Pública. 2024.
Gustavo,
Túlio . “Como eu descobri o plano de dominação evangélico – e
larguei a igreja”. The Intercept Brasil. 2019.
Mariano,
Ricardo. “Os neopentecostais e a Teologia da Prosperidade”. Novos
Estudos CEBRAP, n. 44. 1995
MENDONÇA, Antonio
Gouvêa. Os velozes plantadores do Reino de Deus: o protestantismo no
Brasil. Rio de Janeiro: UCB/MEC, 1984.
Nardella-Dell’ova,
Pietro. Teologia do domínio: entenda o que é e o papel de Michelle
na campanha”. Congresso em Foco. 2022
Pereira,
Eliseu. “Teologia do Domínio: uma chave de interpretação da
relação evangélico-política do bolsonarismo”. Projeto História
(PUC-SP), (2023) 76:147–173.
Sanchez,
Ricardo. “O suspiro do oprimido: estudos mostram laço entre
barbárie capitalista e conversão neopentecostal”. Esquerda
Diário. 2021
Vital
da Cunha, Christina. “O pânico sobre a Teologia do Domínio
e a cegueira sobre a ganância laica”. Instituto Humanitas Unisinos
(IHU). 2024.
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Oração de Traficante: Uma Etnografia. Editora Garamond. 2015