sábado, 25 de julho de 2026

IGREJAS EVANGÉLICAS: o Céu na Terra, o Capital no altar neoliberal ou a Teologia do Domínio

O fenômeno chamado “Teoria do Domínio” (dominionismo) nas igrejas neopentecostais brasileiras reúne ideias políticas e religiosas com influência internacional. Surge nos anos 1970 a partir de doutrinas estadunidenses (Reconstrucionismo Cristão, Teologia da Prosperidade, “7 montes”), projetos defendem que cristãos devem assumir o controle das principais esferas sociais (família, educação, mídia, negócios, esportes, governo e até mesmo o crime organizado etc.) para “tomar o poder”. No Brasil, donos de grandes igrejas neopentecostais abraçaram ou expressaram essa visão, criando redes políticas e midiáticas poderosas. Esta estratégia adquire tons claramente político e simbólico, visando consolidar valores evangélicos no Estado, estimular mobilização de massas fiéis, garantir benefícios econômicos às instituições religiosas.

ORIGENS HISTÓRICAS E INFLUÊNCIAS EXTERNAS

Desde as primeiras denominações pentecostais brasileiras, houve laços teológicos com matrizes estrangeiras, mas foi só a partir de 1970 que despontou um neopentecostalismo duramente influenciado pelos EUA, arquitetado pelo departamento de Estado e pela CIA para o controle de corpos e impositora de ideologia conservadora/reacionária.

Nesse período proliferaram no Brasil novas doutrinas vindas da América do Norte, notadamente a teologia da prosperidade, a batalha espiritual e a teologia do domínio. A Teologia do Domínio (ou dominionismo) remonta ao protestantismo reconstrucionista: Deus “...os abençoou, dizendo: Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem. E tenham poder sobre os peixes do mar, sobre as aves que voam no ar e sobre os animais que se arrastam pelo chão (Gênesis 1:28) conferindo-lhes mandato para “dominarmos” o mundo.

Na década de 1970, líderes norte-americanos como Loren Cunningham (JOCUM) e Bill Bright criaram a chamada Doutrina dos Sete Montes, profetizando que crentes eleitos invadiriam sete “montanhas” da sociedade (família, governo, mídia etc.). Essa ideia teológico-política cruzou fronteiras, tal como observa Pereira (2023), “oriundas dos EUA, como a Prosperidade, a Batalha Espiritual e o Domínio” tornaram-se parte do ethos de igrejas neopentecostais brasileiras.

Pesquisadores lembram que “a Dominion Theology… foi rapidamente proliferada nos segmentos evangélicos brasileiros” (Mariano 2003). Ou seja, o “plano de domínio” foi importado e adaptado ao contexto de rápida expansão evangélica no Brasil, desde os estertores da década de 60 do século passado, onde igrejas de terceira onda (Universal, Mundial, Renascer, Lagoinha etc.) tomaram essas doutrinas como aliadas da conquista de espaço social e político como aportes anticomunistas da ditadura civil-militar pós-1964.


A Teologia do Domínio conviveu com outras influências. A Teologia da Prosperidade, por exemplo, reforça a ideia de que fiéis devem crescer materialmente como prova de bênção divina. Esse apelo à riqueza e dádivas ajuda a financiar as instituições e a legitimar qualquer apoio político que favoreça esse projeto. Por outro lado, correntes mais recentes como a “Nova Reforma Apostólica” e o discurso conservador internacional (aliança com partidos de direita e fundamentalistas cristãos dos EUA) deram organicidade ao domínio.

O dominionismo foi adotado em igrejas como a da Lagoinha (MG) e disseminado por figuras ligadas a campanhas conservadoras (movimentos contra “kit gay” ou “Escola sem Partido”). Em suma, há raízes pentecostais nacionais mas também “matriz reformada norte-americana” atuando em paralelo. Essa mescla explica por que, segundo críticos, estamos vendo no Brasil um esforço de “conquistar espaços para o Reino de Deus” nas instituições seculares, extensão das ações dos anos 1970 no exterior.

Propósitos políticos, econômicos e simbólicos

A Teologia do Domínio não é um tema religioso abstrato, mas sim um projeto de poder. Eliseu Pereira (2023) define-a como “uma designação difusa para encampar um projeto de poder […] visando controlar as principais esferas estratégicas da sociedade”. Os objetivos claros são políticos (mudar leis, pautar o Congresso), econômicos (garantir isenções fiscais a igrejas, via de mídia e dízimos milionários) e simbólicos/culturais (reforçar valores cristãos “tradicionais” como fundamento da nação), e o combate das influências dos partidos e organizações de esquerda na população explorada.

Em sermões e livros, líderes proclamam que Deus seria um “estadista” com plano nacional, a exemplo de como o “empresário da fé” Edir Macedo declarou em Plano de Poder (2008/2011), onde descreve Deus ensinando “planejamento, organização” no Gênesis e revelando sua “intenção estadista” de formar uma grande nação. Isso vale como inspiração para que os próprios fiéis busquem cargos públicos ou exerçam influência, sob a crença de estarem cumprindo um mandato divino. Michelle Bolsonaro, por exemplo, usou essa retórica medievalista ao exortar “tirar o diabo do poder” (a centro esquerda lulista), enunciando que o presidente deve ser o “ungido” para libertar a nação, um discurso típico da Teologia do Domínio.

Avaliando em termos simbólicos, o projeto serve para reconstruir uma identidade cristã nacional. Defende-se que ao deixar espaços “não cristãos”, a sociedade decairia, e que os cristãos são escolhidos para ocupar o poder. Essa visão justifica estratégias de “guerra cultural” valendo-se de campanhas midiáticas contra o ensino laico e programas escolares (Escola sem Partido), criminalização do aborto, censura artística ou mesmo a defesa de uma “ideologia judaico-cristã” odiosa contra inimigos políticos.

A vitória de Jair Bolsonaro foi interpretada por muitos líderes neopentecostais como cumprimento profético, reforçando a crença de que unir política e fé traz prosperidade e autoridade. No plano material, a Teoria do Domínio sustenta a mobilização de dízimos e doações para financiar templos, emissoras de TV e eventos de massa (marchas, “avivamentos”), que por sua vez lucram e ampliam o alcance, além de impor um severo controle de corpos e mentes. Assim, existe um reforço recíproco: poder estatal para implantar agendas e benefícios e poder econômico para dar solidez às hierarquias religiosas e suas conveniências materiais, ou seja, dinheiro mais dinheiro, lucro com a fé.

EXEMPLOS CONCRETOS NA PRÁTICA INSTITUCIONAL

Múltiplas organizações ilustram esses métodos. De um lado, grandes igrejas neopentecostais que assumiram papel político evidente. Edir Macedo prega abertamente que “Deus é estatista” e orienta seus fiéis a votarem em candidatos simpáticos. Pastores como Silas Malafaia e Valdemiro têm assessorias políticas ativas e buscam espaço em parlamentos e em organismos da sociedade civil.

Em campanhas eleitorais e nas ruas, espalham narrativas de “batalha espiritual” e fakenews contra adversários (acusando-os de pactos demoníacos, mamadeira de piroca...). Aparece agregada neste contexto, a milionária Igreja Internacional da Graça de Deus, fundada pelo pastor R.R. Soares. Ao mesmo tempo, todas mantêm uma pesada máquina financeira em que boletins internos pedem dízimos recordes para sustentar cada ministério ou canal de mídia, como forma de garantir “fôlego” político à igreja, em unidade com lideranças conservadoras e reacionárias como a aliança com a família Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, além da bancada da bíblia, da bala e do boi no Congresso Nacional (hoje fortalecida pela bancada das bets).

UMA Perspectiva MATERIALISTA: classes, poder e acumulação

A ascensão dessas ideias não é mero fenômeno espiritual, mas reflete contradições de classe. O marxismo clássico entendeu a religião como expressão da exploração, posto que nos tempos atuais, a Teoria do Domínio funciona como ideologia da classe dominante evangélica. Observa-se que grande parte dos novos convertidos são oriundos de camadas empobrecidas (periferias, desempregados) que encontram na mensagem de cura e prosperidade um alívio simbólico às suas carências. Estudos apontam que crises econômicas (desemprego, queda de renda) aumentam a procura por igrejas neopentecostais.

No Brasil, cada 1% de perda de renda nos anos 1990 teria correspondido a 0,8% mais de conversão de católicos ao neopentecostalismo. Este fenômeno social demonstra a “alavancagem” de convicções religiosas em momentos de miséria como já apontava Marx em seus escritos, a religião pode atuar como “álibi” ou “conforto” para injustiças. Em contrapartida, o discurso dos líderes frequentemente desvia o foco das causas sistêmicas da pobreza, culpando imoralidades sociais ou “inimigos demoníacos” (cultura secular, “marxismo cultural”) em vez de questionar o próprio modelo econômico. Ao contrário, “glorifica” nos púlpitos um establishment de conteúdo teocrático/capitalista!

Tal prática, ou pragmatismo, não é acidental, pois reflete a adequação da superestrutura religiosa às demandas do capitalismo tardio sob o manto de um ultraneoliberalismo reacionário, ou “cristofascismo” como ficou conhecido. A fé é commodificada a partir da qual a igreja passa a operar com a racionalidade de uma empresa corporativa, onde a salvação espiritual se entrelaça com a ascensão socioeconômica individualista e a conquista de espaços de poder na sociedade secular.

Nessa perspectiva teórica, a base material dita a superestrutura. As igrejas neopentecostais construíram uma base material colossal com suas redes de televisão, bancos, imobiliárias e partidos políticos. A retórica de “guerra espiritual” é, na prática, uma metáfora direta para a competição de mercado e a disputa política. Quando líderes religiosos exigem a ocupação de praças públicas, a interferência em currículos escolares ou a censura de produções culturais, não estão apenas praticando um ato religioso, mas engajando-se em uma luta de classes. A elite religiosa alia-se às frações dominantes da economia para manter o controle sobre o proletariado, utilizando o sagrado como ferramenta para blindar seus privilégios terrestres e neutralizar forças progressistas e secularizantes.

PARCERIA PRIVADA COM O CRIME ORGANIZADO COMO ODE AO CAPITALISMO

“Espalhem-se por toda a terra e a dominem” até as organizações criminosas, entre as quais as facções do tráfico e de milícias. Dito isto, os últimos vinte anos, pesquisadores como Christina Vital da Cunha, Patricia Birman e José Cláudio Souza Alves mostraram que traficantes e milicianos passaram a incorporar símbolos evangélicos, financiar templos, converter-se publicamente ou restringir práticas religiosas de matriz africana em áreas sob seu domínio. Em alguns casos, líderes do crime utilizam o discurso religioso para construir legitimidade perante moradores, apresentar uma imagem de “homens regenerados” ou justificar sua autoridade moral sobre a comunidade.

Em regiões controladas por milícias e algumas facções, também foram registrados episódios de perseguição a terreiros de umbanda e candomblé, fechamento de espaços religiosos e imposição de práticas inspiradas em interpretações fundamentalistas do cristianismo. Pesquisadores denominam esse fenômeno de “narcopentecostalismo” ou “traficantes de Jesus”, não para afirmar que igrejas estejam envolvidas com o crime, mas para descrever a apropriação da linguagem evangélica por bandidos que continuam exercendo atividades criminosas.

Esse fenômeno pode ser interpretado como uma forma de legitimação ideológica do poder territorial. Assim como outras formas históricas de dominação recorreram à religião para conferir autoridade ao poder político ou militar, determinados grupos criminosos utilizam elementos religiosos para fortalecer sua hegemonia local, produzir consentimento e reduzir conflitos internos.

ACUMULAÇÃO PRIMITIVA DO CAPITAL RELIGIOSO

A Teoria do Domínio cristaliza alianças entre os donos dos templos (uma nova lumpem-burguesia religiosa, donos de canais de rádio, jornais e tv) e os mandantes do Estado. Nos anos 1970-80, crentes propagaram livremente sua doutrina e venceram suporte no Legislativo uma vez alcançada massa crítica, exatamente como havia previsto o ideólogo Gary North (evangélico neoliberal). Primeiro, garantiu-se liberdade religiosa; depois, ampliaram-se as bancadas evangélicas e progrediram projetos de lei conservadores.

Em termos econômicos, essas igrejas se comportam como corporações capitalistas com fundações midiáticas e clientes cativos (fiéis) que criam lucros permanentes. Podemos chamar isso de acumulação primitiva do capital religioso, ou seja, a extração contínua de valor (sob forma de dízimos, bens ou apoio político, isenções milionárias de impostos) para uma elite (pseudo)clerical. Ricardo Mariano (1995) já apontava como a Teologia da Prosperidade sustentava essa dinâmica, forjando uma “afinidade eletiva” entre fé e mercado neoliberal. Essa fortuna religiosa serve depois para bancar candidatos, campanhas de marketing político e até ações diretas (como o patrocínio de passeatas, “marchas com jesus”).

Assim, criticamente, a Teoria do Domínio revela-se um instrumento de hegemonia ideológica que contribui para alienar as massas ao promover um dualismo “crentes versus ímpios” e desmobilizar ações de classe (como greves) por concepção religiosa. A democracia corre risco de virar “distopia teonomista” se o Estado civil se subordinar a essa fé cega organizada. O desafio agora é apontar as raízes sociais desse fenômeno, entender como a “busca por significado” se alia ao projeto de poder de setores médios e altos e resistir à mistificação de que a salvação material vem apenas pela intervenção divina no poder. Livros como Plano de Poder e Sete Montes não são apenas literatura religiosa. Elas revelam a existência de um projeto de poder. Reconhecer isso é condição para articular uma oposição emancipatória capaz de retomar as reivindicações legítimas do povo (saúde, emprego, educação) sem ligá-las exclusivamente a um trono divino.


Referências                                                     

ALVES, José Cláudio Souza. Dos Barões ao Extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense.

BÍBLIA Sagrada. Gênesis

Birman, Patricia. Religião, violência e cidade.

Cardoso, André; Miranda, Fábio. O crescimento pentecostal e os desafios para o campo popular. Tricontinental Institute for Social Research. 2020

DiP, Andrea; Levy, Clarissa; Terto, Ricardo. “Teologia do domínio é mais perigosa para a democracia que bolsonarismo” (entrevista com João Cezar de Castro Rocha). Agência Pública. 2024.

Gustavo, Túlio . “Como eu descobri o plano de dominação evangélico – e larguei a igreja”. The Intercept Brasil. 2019.

Mariano, Ricardo. “Os neopentecostais e a Teologia da Prosperidade”. Novos Estudos CEBRAP, n. 44. 1995

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. Os velozes plantadores do Reino de Deus: o protestantismo no Brasil. Rio de Janeiro: UCB/MEC, 1984.

Nardella-Dell’ova, Pietro. Teologia do domínio: entenda o que é e o papel de Michelle na campanha”. Congresso em Foco. 2022

Pereira, Eliseu. “Teologia do Domínio: uma chave de interpretação da relação evangélico-política do bolsonarismo”. Projeto História (PUC-SP), (2023) 76:147–173.

Sanchez, Ricardo. “O suspiro do oprimido: estudos mostram laço entre barbárie capitalista e conversão neopentecostal”. Esquerda Diário. 2021

Vital da Cunha, Christina. “O pânico sobre a Teologia do Domínio e a cegueira sobre a ganância laica”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU). 2024.

_________________. Oração de Traficante: Uma Etnografia. Editora Garamond. 2015