O
|
diretor espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, autor de perturbantes obras cinematográficas do quilate de A
boca do lobo (2004), O caixão de cristal (2016)1, criou uma instigante
metáfora em tempo mais do que presente da realidade que nos emoldura presa ao
insano social do consumo capitalista: O
Poço, filme concluído em 2019. Uma narrativa sombria que reflete a condição
humana sensitiva imposta pelo ultraneoliberalismo como um todo, e nos
transparece como um fardo ao assisti-la. O autor faz com que submerjamos
num mundo distópico dominado pelo instinto primário de sobrevivência,
sobejamente metafísico-delirante, cruel, cujos personagens não têm rumo, nem
esperanças, tampouco futuro, exceto um, o excelente Iván Massagué (o
Goreng), protagonista da trama. Logo no
início Urrutia deixa claro seu método e como deve ser compreendido o filme:
“Existem três tipos de pessoas: as que estão em cima, as que estão embaixo e as
que caem”. São paradoxais as inúmeras cenas ao longo do filme, as quais
encerram profusão de cinismo, profunda arrogância acrescida de desprezo pelos
de baixo expresso na atuação de Zorion Eguileor (o Trimagasi), individualismo e
selvageria contumazes que, por fim, amalgamam-se em perigosas amizades (Emilio
Buale, o Baharat), única e mais fiel a aliar-se com o nosso protagonista.




